Cavalos Selvagens

Homens, mulheres e crianças – todos com seus dias previstos e organizados.

As obedientes engrenagens da máquina funcionando com suas rodinhas ensinadas, azeitadas para o movimento que é uma fatalidade, taque-taque taque-taque… Apáticos e não apáticos, convulsos e apaziguados, atentos e delirantes em pleno funcionamento num ritmo implacável.

Às vezes, por motivos obscuros ou claros, uma rodinha da engrenagem salta fora e fica desvairada além do tempo, do espaço – onde? A máquina prossegue no seu funcionamento que é uma condenação, apenas aquela rodinha já não faz parte dessa ordem.

“É um desajustado”. Há que readaptá-lo depressa à engrenagem familiar e social, apertar esses parafusos docemente frouxos.

Pronto, passou a crise? Todos concordam, ele está ótimo ou quase. Mas às vezes o olhar tem aquela expressão que ninguém alcança e volta o fervor antigo, cólera e gozo nos descompromissamentos e rupturas – aguda a lembrança violenta do cheiro de mato que recusa o asfalto, o elevador, a disciplina, ah! Vontade de fugir sem olhar para trás, desatino e alegria de um cavalo selvagem.

Inexperiência ou cansaço? Cavalos e homens acabam por voltar à engrenagem. Muitos esquecem mas alguns ainda se lembram e o olhar toma aquela expressão que ninguém entende, ânsia de liberdade. De paixão.

Em fragmentos de tempo voltam a ser inabordáveis mas a máquina vigilante descobre os rebeldes e aciona o alarme, mais poderoso o apelo, taque-taque TAQUE-TAQUE! Inútil. Ei-los de novo desembestados: “Laçá-los é o mesmo que laçar um sonho”.

Lygia Fagundes Telles, A disciplina do amor. 2 ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980. p. 131-2 (com cortes)

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2 comentários Adicione o seu

  1. CARLA ROCHA disse:

    E a vida continua… Semana iluminada! Grande abraço!

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