O sumo

Estava um tanto confuso e cansado, por consequência das batalhas mentais a que estava submetido. Os últimos meses haviam sido realmente aterrorizantes, na melhor e na pior concepção possível do termo. Vivia em uma cidade nova, cheia de encantos, uma babilônia maravilhosa repleta de acontecimentos, o centro do mundo, aquele lugar onde tudo o que importava parecia estapeá-lo cotidianamente. Um espaço em movimento constante. Ali, vivera os melhores e os piores momentos de sua vida, numa espécie de roda gigante que o impulsionava a uma incursão nova e dolorosa em sua existência. Era refrescante, mas amedrontador. No fim de uma noite de outono, então, encarando o espelho enquanto dava os últimos tragos no cigarro que segurava na mão direita, teve compaixão. Pôs a bituca de lado, abriu a torneira e levou as mãos molhadas ao rosto, aos cabelos, nuca, ao peito, sobre a camisa que deixava os finos braços à mostra. Foi tomado por uma vontade consistente de cuidar de si mesmo. Cansou de estar exausto.

Ele lia horóscopo e dias antes, instintivamente, como se não pudesse evitar, creu nas previsões mais otimistas que via saltar da tela do computador. Era, por natureza, um crente, um homem de fé. Perdera a esperança apenas uma vez, e, frisava sempre que oportuno, não havia valido a pena. Sentiu alívio, como se não acreditar, de repente, tivesse lhe tirado uma enorme responsabilidade das costas. Mas, depois, havia um gosto amargo na boca, que dessa vez não vinham dos cigarros, tampouco dos jatos de esperma dos desbravadores que recebia aleatoriamente em suas terras, mas de fracasso, de derrota, de morte prematura. Entrou em processo de recuperação da etimologia do entusiasmo. Queria encher-se de alegria, de convicção, embora a insegurança continuasse sendo uma companheira sombria.

Olhava para frente com bravura, embora tudo o que conseguia enxergar fosse névoa. Às vezes, durante a manhã, enquanto fumava o primeiro cigarro do dia, ainda sem escovar os dentes, olhava para aquela perua de uma beleza tão improvável, deliciosamente decadente, os cabelos crespos loiríssimos, fumando um cigarro atrás do outro, gritando histericamente. E, ouvindo seus gritos e seu vocabulário repleto de gírias muito peculiares, imaginava os caminhos que ela havia percorrido até chegar ali. Traçava um paralelo com seus próprios caminhos, mais sinuosos do que gostaria e projetava uma possibilidade. Várias. E terminava sempre achando que era realmente estranho que ele estivesse em meio àquele circo de horrores com a graça de uma piada inesperada e que dele conseguisse extrair algum sumo para sobreviver às vinte e quatro horas seguintes.

Graças a Deus, não estava só. Tinha um bravo parceiro, tão bonito quanto o amanhecer de um dia de esperança. Ah, que alívio! O amigo tinha a força de uma pantera e a agitação de uma borboleta. Ele tinha até inveja de suas muitas habilidades e da maneira sempre cômica como ele vivia. Ouvia com prazer ele falar sobre a enorme dificuldade de escovar um cabelo volumoso, sobre como as mãos doíam e sobre como o ar quente lhe queimava os dedos. Tudo com riqueza de detalhes e num tom meio sórdido e deveras engraçado. Era um sopro de ar fresco reparar nos seus gestos finos e nos seus discursos prolixos, cheios de “contemplação”. Era um reino feminino, no qual ele agradecia ter a felicidade de se encaixar.

E havia, como salvação, a música, que o engolia e o aproximava daquele momento em que as cabeças respiram, os sentidos se abrem. Era bom sair, ver os diferentes cenários, os contrastes. Mesmo acostumado à paisagem, havia uma sensação muito peculiar que abria as portas da percepção para os detalhes. Queria, em vão, compreender os juízes, ouvir as respostas de que tinha medo (aquelas que sua mente projetava como a pior possibilidade, diante de muitas). Era uma sequência tão avassaladora de acontecimentos, tão desconcertante, que era difícil para ele lembrar de como havia sido o dia, quais eram aqueles momentos que ele gostaria de ter guardado e não conseguiu. Eles flutuavam em algum lugar dentro dele mesmo, e só se manifestariam num momento em que, encaixados, ajudassem-no a compreender aquilo que chamam de envelhecer: a passagem do tempo, a transformação de um mundo, as mudanças que abrem incurso em uma atmosfera cada vez mais paradoxal e complexa.

A sensatez precisava visitá-lo com mais frequência.

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