Great times are coming

Que ficasse claro: lavar pratos, talheres, travessas, tanques engordurados e matar pequenos insetos não era uma tarefa indigna. Era inglória. Enquanto tentava se livrar do cheiro de frango nas mãos, enquanto comia as batatas fritas desprezadas pelos clientes, assistia às cenas recheadas de drama e melancolia do filme que passava em sua cabeça. Era tomado por pensamentos de todo tipo, da quase insuportável dor nas costas e no punho esquerdo à violência do capitalismo.

No dia seguinte, livre das dores físicas mas ainda com o gosto amargo da frustração na boca, pensava no quão doloroso era ser um homem só. Realizar sonho algum deveria exigir tamanho sacrifício. Quão indigno era esperar por uma declaração prática de amor? Quão insustentável era implorar por uma visita da sorte? Pensava no quão angustiante era estar cansado. Travar guerras já não era um caminho. Bandeira branca. Ele implorava por paz.

O amor, então, era aquele bicho estranho, que se alimentava de nutrientes improváveis. Onde o amor o levaria? A quantos testes ainda o submeteria? Na cabeça dele, era engraçado e assustador, dependendo do ponto de vista: você nasce e passa o resto da vida tentando se manter vivo. O amor, ele pensava, parecia ser o combustível que fazia com que quiséssemos percorrer os muitos milhares de quilômetros de estradas em péssimas condições até chegar naquilo que consideramos uma existência satisfatória.

Mas percebeu, repentinamente, com a violência de um osso que quebrava, que não precisaria se preocupar com outra coisa além do estômago vazio. De resto, iria aproveitar os dias da melhor maneira possível. “Caminhante, exercite a fé e aceite: você não é nada, absolutamente nada, se começa a olhar a vida como um jogo sério demais para aproveitar com o mínimo de bom humor a partida”.

Naquela noite, segurando um copo grande com a irônica inscrição “great times are coming”, decidiu: ia parar de se preocupar. Porque, se não tinha mesmo controle de nada, melhor seria assumir suas limitações. Não era pessimismo, mas a constatação da obviedade de um discurso que ele mesmo espalhava, mas não praticava. “Me leve até onde eu possa aguentar com bom humor e saúde”. Era um pedido e uma aceitação.

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