“Um dia desses seu coração vai bater pela última vez e vai parar”

“Devastado. Essa seria a resposta mais exata para quem lhe fizesse a pergunta de praxe (como vai?). Mal conseguia respirar com aquelas dores insuportáveis. Ficava imaginando se dali em diante as coisas continuariam a piorar até desaparecer, ou se ele abriria os olhos na manhã seguinte e aquele pesadelo teria passado. Perder a saúde era o golpe mais baixo. Como ele poderia lutar com aquela infecção contaminando todos os espaços do seu corpo? E era também uma tortura psicológica que ganhava contornos dramáticos. Se sentia debilitado, fraco, desamparado, infeliz. Nada mais parecia poder trazer novamente aquele entusiasmo. A vida era sufocante e ele estava só. E de nada adiantariam as lágrimas derramadas naquela tarde quente de abril. De nada adiantariam as palavras vomitadas, os olhares de desaprovação, aquela fria intimidade. Mais perturbadora que a dor, a solidão, era a pobreza material num mundo enterrado pelo capitalismo. ‘Sem dinheiro ninguém é feliz’. Foi dormir pedindo para morrer e renascer inteiro novo. Porque de tudo que tinha vivido, só restara pó”.

Guardado em um bolso qualquer, de uma roupa qualquer esquecida num canto qualquer do quarto imundo, aquele rascunho com palavras tão duras não significaria nada no dia seguinte. Restaria sua insatisfação com a escrita óbvia e superficial, extremamente dramática, como soava sempre tudo que colocava no papel.

As dores do dia anterior já estariam devidamente tatuadas em algum lugar entre o cérebro e a alma; a matéria, ainda que num plano algo abstrato e a mais pura metafísica. No ponto em que estava, estava farto da baixeza espiritual dos que lhe cercavam, da perspectiva rasa dos discursos cheios de certeza, das vozes altas disputando mérito.

Estava abismado com a falta de honestidade com que as pessoas olhavam para si mesmas. Exausto com os jogos do sistema. Até porque eles eram redundantes. Só se chega a um destino, independente do caminho que se trace: o da solidão, que é, na maior parte das vezes, uma coisa triste. Escolher o caminho deveria poder ser uma alegria.

Aos 23 anos tudo o que ele sentia era uma frustração imensa por ter desapontado tanta gente, por não ter construído nada além do buraco vazio no coração. Isto, em dias cinzas como aquele, quando era perturbadora a falta de esperança e brutal a ausência de entusiasmo. Porque haviam também dias mais luminosos, mais coloridos, em que a sorte lhe sorria e Deus lhe dava um voto de confiança (que soava, também, como uma declaração de amor). E aqueles eram os dias em que era humano, era digno estar vivo. Eram os dias em que se brindava com o coração alegre, pedindo apenas a permanência do bem-estar e da sabedoria. Aqueles eram os dias em que ele olhava para o passado e, orgulhoso, sorria com o canto da boca. Era bom estar livre de pressões, culpas, arrependimentos, laços demais.

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