Punhos e corações

Estava naquele estado perigoso em que fumar dois ou quarenta cigarros não fazia diferença – mas tendia quase sempre ao exagero. Pararia de fumar. Em breve. Continuava sonhando com coisas grandes e pequenas coisas. Continuava admirando as espetaculares paisagens e o zigue-zague da vida, com olhos castanhos vermelhos e atentos. Tinha sede.

A música ganhava cada vez mais importância. Estava nos ouvidos, na garganta, percorria a cabeça em círculos, passeava pelo corpo. Música também era alimento. Dia e noite.

Estava irremediavelmente atraído pela noite e por dias cinzas. A chuva o visitava com mais frequência, agora. Dias de chuva o levavam rapidamente a um estado um tanto melancólico e bastante reflexivo. Como uma planta, uma árvore exuberante e imóvel.

O sol pedia sempre mais movimento. Ou, pelo menos, mais exibicionismo. O calor pedia mais cores, tons abertos, vozes um tom acima ou muitos tons acima.

Gastava o tempo assim, pensando em cores, temperaturas, pessoas, cidades, ofícios. Acendia outro cigarro, buscava rastros de nuvens púrpuras e estrelas. Não havia nada. Relacionava sexo e automóveis, relacionamentos e edifícios, escrita e sangue, enquanto esperava a cicatrização das feridas provocadas por picadas de insetos vorazes e corações em ebulição.

Levava a mão esquerda ao peito; sentia sua pele tão jovem. O punho fechado ainda batia.

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