Nightlight

Sentia falta do cigarro, em especial, imediatamente após acordar, após as refeições, ao sair e chegar em casa. Os últimos dias haviam sido sofríveis. As unhas estavam horrorosas, todas comidas, as mãos desidratadas, os pés grossos como couro. Sentado na sala, a TV ligada, os pés escorados no sofá, apontados em direção ao teto. Janelas e portas abertas, ventava frio e ele espirrava. Ah, e aquela tosse sem graça que o acometia intermitentemente. Quantos dias sem cigarro? Cinco? Seis? Sem contar aquele dispensável meio Marlboro que ele tentou fumar na tarde apática daquele mesmo dia. Nos ouvidos, ad infinitum, Little Dragon, Nightlight. A cabeça viajava por lugares estranhos, como o inferninho onde ele chupou o careca de olhos muito verdes com tamanha dedicação que achou que tivesse ferido a garganta e o corredor escuro que levava às cabines daquele puteirozinho de luxo, por onde ele andava vestido com aquele uniformezinho pavoroso, limpando esperma e borrifando sistematicamente um neutralizador de odores por todos os espaços. Mas e daí? Agora só restava mesmo aquela dor de cabeça chata que parecia querer tornar tudo tão mais insuportável e aquela fagulha de esperança que mesmo que ele quisesse matar, não morreria. Saiu de casa, arrastado, sentou-se mais uma vez no degrau sujo daquela terra estranha, sem nenhum centavo no bolso, sem cigarros, à espera de um grito, um significado, uma luz qualquer naquela noite repleta de pequenos dragões vorazes.

E no fundo, submerso naquele mar de sentimentos tão controversos havia um, especificamente, que, meu Deus, ele não sabia sequer como chamar. Era uma coisa tão poderosa, tão poderosa, que provocava nele louvor e medo.

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