Um

Quase quarenta minutos atrasado para o trabalho, segunda-feira plena esmurrando a sua cara, depois de cinco dias afastado de uma rotina medíocre pelo total colapso do seu corpo. Meu corpo, no caso. Invento uma mentira qualquer, quando a verdade é que eu não conseguia levantar da cama para levar, por mais um único dia sequer, uma vida sem paixão. Mas, vejam só: consegui. Não sei se por esperança ou por falta de opção, e, agora, tenho um dia inteirinho de frustrações pela frente e elas vão me fazer ficar doente de novo. Pelo menos eu larguei a porra do cigarro de vez e eu não quero encostar a boca naquela merda nunca mais. Nunca mais. Espero que isso esteja claro o suficiente pra mim, agora.

Tenho acordado quase todos os dias como se um caminhão tivesse passado por cima dos meus ossos, e sinto náuseas quando olho pela janela e me dou conta de que estou no Rio de Janeiro, essa cidade tão maravilhosa, esse paraíso infernal que até agora só me trouxe desgraça na vida – inclusive aquele primeiro cigarro, que eu fumei ali mesmo nas areias de Copacabana na virada do ano. 2012 não poderia ter começado mais promissor. E agora, quase oito meses e doze toneladas de fumaça depois, eu sinto que a promessa se cumpre e esta é uma vida tão medíocre e tão diferente da vida que eu esperava quando saí de Brasília, com todo aquele entusiasmo no peito e todas aquelas coisas no porta-malas daquele Fiesta.

Eu queria não parar de escrever, para dizer tudo que tenho vontade e necessidade e ter a chance de um dia ser lido por alguém que se identifique, e, juntos, façamos revolução, ou façamos amor, mas, claro, eu preciso trabalhar. Eu preciso redigir textos sobre feiras de decoração, sobre espelhos que custam oito mil reais e cadeiras, poltronas, cachepôs, tapetes, vasos, bibelôs que ninguém precisa, mas todo mundo quer. Meu problema não é com o trabalho. Meu problema é só me enxergar como artista. Minha ideia de trabalho está completamente atrelada à capacidade de me envolver emocionalmente com aquilo que faço e isso pode ser bom ou ruim. Óbvio que quando se trata de mim só pode resultar em coisas ruins. Tem sido assim desde que me lembro.

Me sinto cansado. De verdade. E tem essa tosse que me impede de pensar em qualquer coisa. Os médicos suspeitam de pneumonia atípica. Ou tuberculose. No segundo caso, recomendam, devo fazer o exame de HIV, porque, em boa parte dos casos, na maior parte deles, se não me engano, a tuberculose está ligada à baixa imunidade do organismo provocada pelo vírus. Mais fácil se fosse só pelo cigarro, mas eu não posso me dar chance de fugir de um exame desses quando eu tive aquela noite tenebrosa resultado de uma perigosa combinação de LSD e da visão do homem por quem eu era completamente apaixonado sendo fodido por um estranho quase na cabeceira da minha cama e eu tive um surto. E saí correndo e acabei a noite transando com um homem sem rosto no Aterro do Flamengo. Até hoje eu me pergunto se era ou não um mendigo, se era alguém real, com carne e osso e secreções. Se eu pelo menos conseguisse lembrar…

Ah, e claro, tivemos também aquela outra noite, quando eu e o meu amor, Acássio, gastamos quase trezentos reais e fomos parar numa sauna em Ipanema, e depois de horas de uma aplicada, dedicada excursão por corpos e corpos eu não consegui resistir ao pedido daquele menino tão carinhoso, tão cuidadoso comigo, gemendo no meu ouvido e pedindo para me foder. A única coisa que eu lamento naquela noite é não ter pego preservativos suficientes no armário, antes de subir para os dois últimos pavimentos daquele casarão sem encanto. Lamento também ter tido que encarar aquele filho da puta escroto no dia seguinte, olhando para minha cara com aquele bafo podre de cachaça, me dizendo que estávamos dando o cu na rua e por isso merecíamos apanhar feito cadelas no cio.

Houve, também, as outras experiências, em outros territórios, das quais eu já tinha me arrependido e das quais eu apenas esqueci assim que recebi o resultado negativo do primeiro teste de Aids que fiz na vida – um erro que eu prometo agora, a mim mesmo, eu não cometo mais. Toda essa tensão é suficiente para que eu queira evitar esse tipo de merda de  novo na minha vida. Preciso começar de novo e fazer certo desta vez. Eu não tenho muito com o que contar e eu só quero conseguir ser bom o suficiente para me manter vivo. E pleno. Amém.

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