Dois

Atrasado para o trabalho de novo. Invento uma nova desculpa, quando a realidade é a mesma. Pedi a Deus força, coragem e entusiasmo, levantei da cama, preparei um pão com ovo e saí de casa com meus sonhos no bolso da calça e Little Dragon explodindo nos ouvidos.

Uma semana sem cigarro, hoje. Vejo alguém fumando e tenho pena e aflição. Voltei a me sentir como antes de encostar um cigarro na boca. A diferença é que existe uma trajetória entre o antes e o agora e eu já não sou mais tão hipócrita. Hoje, posso dizer “olha, eu entendo você, sei pelo que está passando, é bom, essa sensação gostosa de que o cigarro é um aliado, mas ele vai foder você no fim das contas”. Quem me daria ouvidos? Alguém se importaria ou só estou seguindo minha natureza de depositar significado em coisas às quais ninguém mais parece dar importância? Alguém me dirá para guardar meus conselhos para quem os pedir e eu vou achar que ele tem razão.

A rotina no trabalho parece menos enfadonha mas é só impressão. Fui ao banheiro conferir e falta mesmo aquele brilho nos olhos, aquela ferocidade em defender seu ofício de ataques, a tranquilidade de fazer o que se gosta, trabalhar sem sentir, porque, afinal, o trabalho é prazeroso e você está acostumado a sentir o peso do trabalho como aquilo que te afasta do que você é. Sempre tive grandes dramas com isso, não é diferente agora. Se eu for vítima de câncer, um dia, eu atribuo a essa realidade. Ao cigarro também, claro, mas sobretudo a essa coisa imensa a que eu não consigo dar nome, essa fome por uma vida digna, decente e feliz, que recusa de maneira tão forte a dureza das relações, do trabalho como tortura, das convenções, do mundo, e que me faz ser esse estranho, esse animal, o caranguejo sem a casca áspera e dura cobrindo o corpinho tão delicado. Eu fui tirado da casca pela possibilidade de valer a pena ser o que eu sou, de ser amado e ser bom por ser quem eu sou e mais nada. É se atirar do precipício.

Às vezes eu me pego parado, com o olhar vagante, incapaz de fazer qualquer coisa além de tentar compreender o que passa pela minha cabeça e pela cabeça das outras pessoas, nós todos, que fizemos o mundo chegar nesse estado lamentável das coisas, em que parece terminantemente impossível reverter as escolhas e tomar caminho diferente.

A minha parte em fazer diferente é tentar ser feliz.

Não posso fazer bem melhor para o mundo do que tratar de ser, eu mesmo, feliz.

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