Três

Luciana voltou para Brasília hoje com a ideia fixa de voltar a morar no Rio. Pudera. Brasília é uma cidade apática, pálida. Não combina com ela. Ela diz que fica mais bonita quando está no Rio e eu concordo. Todo mundo ganha uma aparência melhor no Rio de Janeiro. O humor melhora, também. Claro, não há nenhuma receita mágica e a vida aqui é como em qualquer outro lugar, embora diferente de tudo.

Há uma semana Luciana teve um colapso. Acordei com uma ligação dela no sábado às onze e meia da manhã perguntando se eu queria encontrá-la no mesmo dia, às cinco, no aeroporto Santos Dumont. Claro, eu queria, mas fiquei preocupado. Ela estava a trabalho no Sul, hospedara-se na casa da amante de um político local que concorria à prefeitura da cidade. Trabalho feroz, colossal. A voz anunciava: as coisas não iam bem.  Adoeceu e mandaram-na para recuperação na casa dos pais, em Petropólis. Ela veio e dormiu conosco, no Rio, por duas noites. Quando subiu a serra garantiu que estava quarenta por cento melhor. Voltou uma semana depois, recuperada, dormiu conosco mais uma noite e pegou um avião pra Brasília no dia seguinte. Me mandou uma mensagem com os olhos cheios de lágrimas. Viver em Brasília machuca qualquer um com um coração que ainda pulsa.

O trabalho está ficando menos insuportável. Ou eu estou? De alguma forma as coisas parecem mais claras nesta quarta-feira: meus objetivos, os anseios da minha alma. Intuitivamente, acho que essa sensação não deve durar muito, mas eu peço, meu Deus, eu peço permanência, serenidade e sabedoria. O que me corrói é ter de esperar. Os dias se arrastam e eu sinto que conquistei muito pouco para quem foi avacalhado como eu fui, pra quem chegou aqui com tanta sede, querendo beber o mar e querendo ser visto e ser compreendido. Me atormenta essa necessidade que eu alimento com convicção de que as coisas devem acontecer mais rápido, pra que eu chegue mais rápido naquele ponto em que a busca, seja ela qual for, será mais amena e a vida será um monte mais prazerosa. Isso significa, basicamente, conquistar dinheiro e sucesso.

Mas eu não sou só uma bitch. A minha ambição não é só vaidade. Eu sei, eu sinto que tenho coisas a dizer e há diálogos importantes, sendo trazidos à tona por algumas pessoas (como a nova política de drogas, a nova percepção de família, a extinção da Polícia Militar, os novos quadros políticos, novos braços da comunicação…) dos quais quero participar de maneira menos coadjuvante. A minha ambição é intelectual, também, e é coletiva. O ser eleito é, afinal, eleito para algo. Ninguém que recebe um golpe da sorte pode achar que a vida não irá cobrar cada centavo de volta.

*

Embora o trabalho esteja se tornando menos intragável não posso esconder que era assim que eu gostaria de gastar meu tempo: escrevendo, escrevendo e escrevendo, que é a melhor forma de tentar compreender meu tempo, meu espaço no mundo, meu corpo, minhas ideologias, minha música, os amores e os horrores que eu vivo com tamanha paixão. Paixão demais. Numa dessas noites um rabugento Acássio apontou que esse era o meu pior defeito. Disse que eu o assustava. Secretamente, fiquei feliz com a acusação, porque ela só demonstra que ele realmente me conhece. E também porque ser apaixonado demais não é só meu pior defeito como é, também, minha melhor qualidade.

Luci trouxe um pouco de ar puro para nossa relação. A convivência tão próxima que eu e ele temos experimentado nos últimos dois anos, e nos últimos meses juntos nessa cidade, sobretudo, tem um lado pavoroso, de ciúme e descaso um com o outro. Tenho uma relação paradoxal com a ideia filosófica da aceitação total incondicional. Amo incondicionalmente, como quero, incondicionalmente, ser amado, mas as brigas e dramas pelas concessões são comuns. Eu gosto de você, apesar disso, mas se você puder mudar, não posso negar, vai ser muito melhor.

Talvez um copo com água me ajude, por hora.

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