Quatro

Em dias lindos como o de hoje, quando os raios de sol entram na minha pele violentamente, intimamente, e o vento acaricia meu corpo de maneira tão pornográfica, eu fico pensando na vida que eu gostaria de ter e na vida que eu tenho e fico abismado com a colossal diferença entre as duas. Me incomoda estar constantemente insatisfeito com o momento concreto da minha vida e eu tenho pressa em resolver essa situação de merda logo. Como uma interminável busca por um estado das coisas que não chega. É dolorosa essa sensação de estar com as mãos atadas. E é doloroso saber que eu também fui o responsável pelas escolhas que me trouxeram até aqui.

Mas o trabalho está melhor e eu sei que não devo reclamar. Os criados-mudos, bowls, aparadores, buffets, sofás, mesas e demais móveis e objetos de preços exorbitantes continuam tendo sobre mim o efeito de um tapa na cara, mas eu penso nos mil e duzentos reais que vou receber no fim do mês, penso que poderei ir ao supermercado e comprar alguns legumes, frutas e aquelas bobagens que eu gosto tanto e que fazem com que eu me sinta genuinamente feliz. Felicidade pra mim sempre foi ter a geladeira cheia, antes mesmo de saber o que a palavra larica significa. Então, eu penso nisso e em toda a liberdade que o meu salário que não compra uma fruteira Jacqueline Terpins, tampouco uma luminária da Lattoog ou um banquinho do Jader Almeida, irá me trazer, a passagem que poderei pagar para chegar à praia, e me sai um sorrisinho de canto de boca da cara e eu me sinto mais tranquilo. Sim, eu ainda preciso encontrar um espaço legítimo para minha imaginação, mas o importante é que esse dinheiro me tira da sujidade total e me dá chance de levar uma vida menos indigna nesse inferno de mundo capitalista.

*

A tosse continua, persistente, mas meus pulmões começam a liberar catarro e acho que isso é bom. Encaro aquela secreção viscosa que eu cuspo na delicada cuba branca da pia do banheiro como um tímido atestado de cura e continuo pedindo a Deus por misericórdia e compaixão, mais uma vez. Eu preciso de Deus. É démodé, eu sei, mas eu não dou a mínima para essa gente que ri da capacidade alheia de ter fé.

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