Cinco

No início da madrugada de hoje eu sentia dor nas costas e aquela vontade de ter a saúde de volta. As tensões que eu vivia afetavam minha carne, minha postura, eu precisava de uma reestruturação física e emocional completa. Na minha cabeça isso ia me garantir a tranquilidade espiritual que eu buscava. Você sabe, aquele peso da religião como salvação do horror do inferno. A leveza do Deus como salvação do inferno que a vida pode se tornar.

Estava ali jogado nos degraus cobertos de azulejo da escadaria da Lapa. É um dos meus lugares prediletos no Rio de Janeiro, onde você encontra todo tipo de gente esquisita e apaixonante fazendo todo tipo de coisa. Onde te oferecem maconha e cocaína como se oferecessem amendoim torrado e onde de vez em quando aparece a polícia distribuindo tapa, spray de pimenta e lição de moral, usando muita força bruta, que é produto da ignorância. Se não tem cena eles ficam ali do lado, marcando presença enquanto você acende seu baseado. Hipócritas, hipócritas.

Fim de semana sem dinheiro algum. E eu achando que ia poder ir à praia e acabar a noite em algum inferninho. Eu sei que a qualquer hora ia bater a solidão, a carência ia gritar e eu ia acabar me enfiando num buraco qualquer onde pudesse ficar de quatro para alguém. Era sempre assim, não era? Como podia ser diferente? Lembro das reuniões em que passávamos algumas horas compartilhando experiências e nos agarrando à filosofias. Saía dali louco para foder depois de tanto falar de sexo. E então eu lembrava do estudo de todas as coisas e das relações entre si, das vinte e quatro horas que eu tinha pela frente para viver como uma pessoa normal, para quem o sexo não era uma maneira de redenção, nem de sacrifício, de salvação ou de condenação. Acho que o sexo foi a primeira droga que conheci na vida e a que tem mais poder sobre mim. A segunda foi a música.

Marina está no Rio para o fim de semana. Ela está apaixonada, mas ele não. Sorte, amiga. Macarrão com salsicha. Parmesão, limonada. Fumamos juntos e ela deixou um presentinho. Salve, Marina.

*

Chegamos ao Rio embasbacados, em estado de total euforia. Eu estava encharcado por um modo de ser tão puro e tão sedento por algo bonito na minha vida… Até os letreiros com os itinerários dos ônibus me encantavam. Estava feliz por estar finalmente no lugar com o qual eu tinha sonhado tanto e por tanto tempo e obcecado com a ideia de me lançar no turbilhão de possibilidades que minha mente projetava com surpreendente criatividade.

(Eu precisava estar perto da água, movimento natural de um câncer com ascendente em câncer, recém-saído da faculdade, sem nada que me prendesse ao cinza de Brasília. Carregava comigo a sensação de que lá nada, nunca, acontecia. Queria cor na minha vida em preto e branco e o Rio me saltava aos olhos como aquarela, reino das matizes mais fantásticas de que se tinha história. No Rio as coisas começaram a acontecer. De uma forma bem brutal, bem desumana, que é pra calejar nossas almas. Quanta cor e quanta tragédia, Deus).

Ao acordar, continuávamos pasmados. Continuávamos encantados com tanta luminosidade, com a geografia tão diferente dos planos pouco acidentados de Brasília. Vivi os melhores e os piores momentos da minha vida nesses dias e sei que estava certo em acreditar que essa viagem mudaria a minha vida.

*

Falamos sobre como o mundo exige que você aja com violência para ser você mesmo, sobre o quanto a racionalidade apara nossas arestas e nos faz reflexo de algo que não somos. Agrado dizia que nos tornamos mais honestos à medida que nos aproximamos daquilo que sonhamos que somos. Eu digo que parece cada vez mais difícil ser um sonhador, que não há espaço para nós e que sofremos demais para sermos felizes. A única coisa que nos resta é a alegria, salvação da nossa alma, como sabia Clarice.

Três cigarros depois e eu me sinto um hipócrita. After the rain we forget, já dizia Yukimi. Katy Perry hospedada no Fasano, uma pequena multidão faz barulho e espera por acenos na porta do hotel e penso no quanto o negócio da fama pode ser bizarro e assustador. Praia. Depois de um mês sem entrar no mar, finalmente praia. Arpoador, Ipanema, Copacabana. O Rio é espetacular. Que cidade linda, linda, linda, indecentemente linda. Por acaso, ou não, achei dia desses num jornal a descrição perfeita para uma parte do que tenho conhecido do Rio de Janeiro, que o autor chama de “o contraste carioca: a natureza exuberante emoldurando uma cultura urbana efervescente”.

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