Seis

Morar no centro da boemia carioca é tão divertido quanto se pode supor. Muita gente, de todo tipo, todas as oportunidades de bom sexo e de sexo ruim imagináveis. Convenhamos, é impossível não pensar em sexo no Rio de Janeiro, o que torna sua vida mais difícil ou mais prazerosa, ou os dois, dependendo do ponto de vista. O meu ponto de vista é o de que minha vida sexual está em decadência. Terrível, considerando os meus 24 anos. Eu deveria estar no auge do exercício da minha sexualidade. Mas escritores transam menos, segundo estudos. Portanto, sou nada além de um número para servir de estimativa. É cada vez mais difícil encontrar alguém interessante se você deseja algo além de sexo, e confesso, estou farto de levantar e vestir a roupa, de subestimar nomes de batismo e de cabines de saunas, de cinemas eróticos e essa bosta toda.

Esqueci os óculos em casa. Estou vendo a minha disposição para o trabalho cair vertiginosamente. Um gole de vida, por favor. Uma dose cavalar de entusiasmo para que eu possa encarar mais esse dia que se desenha tão ordinário diante das minhas pupilas levemente dilatadas. Sinto que tudo que me mantém de pé ameaça sofrer uma pane irreversível e ruir. Vou deixar de existir. Estou deixando de existir como eu me conheço e tenho medo de que as coisas continuem dando estranhamente errado, de uma maneira que me foge à compreensão. Não sei o que fazer além de esperar. Não sei o que fazer além de manter o olho fixo nessas palavras. Apago, escrevo, apago. Elas me soam tão assépticas e tão inofensivas. O oposto da arte. Não consigo me concentrar, desisto. Minha vontade é sair correndo e não pisar mais nesse escritório, mas me sinto incapaz de mover um dedo sequer. Pareço morto, me sinto morrendo lentamente, como Neruda, sem escapatória para minha alma enfraquecida.

*

No fim das contas a gente acaba disputando o bolinho da desgraça, pra quem tem a pior história pra contar.

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Dormi pouco, passei horas na frente do computador vendo pornografia e peregrinando por salas de sexo na internet. Muito tesão e pouca disposição pros idiotas. Cheguei atrasado no trabalho, mas comi bem no café. Me sinto disposto, até mudei a postura, cruzei as pernas.

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O Fabiano não era exatamente o que eu esperava de um chefe quando fui trabalhar no escritório. Ele vai para a academia três vezes por semana, tem um relacionamento estável com outro homem e problemas com lésbicas, porque acredita que elas reúnem o pior do homem e da mulher. Ele é engraçado, do tipo que você admira pelo senso de humor. E tem sido paciente comigo, sempre que consegue. Fim do expediente. Vou pra casa cozinhar alguma coisa. Decido no caminho não ter expectativas com relação a coisa alguma. É que de vez em quando o rancor fala mais alto, grita. Mas a dor de uma decepção amorosa é permanente, mesmo quando superada. Aqueles que nos fazem mal têm sempre espaço em nossos corações.

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