Sete

It may be years until the day, my dreams will match up with my pay.

As coisas estão melhores, agora. O dinheiro deixou as coisas um pouco melhores. Já posso comer aveia e frutas no café da manhã, consigo deixar que as unhas cresçam sadias. Ah, Yukimi, sua voz é tão sedutora… O trabalho tem consumido todo o meu tempo e disposição. Tenho aprendido a encarar com a bravura possível a necessidade de ter uma ocupação (ainda que não seja a que eu gostaria) que me mantenha independente e simbolicamente longe de tudo que me afasta da vida que eu quero viver. Feist entende o que digo e isso me conforta, embora não deixe de ser, em momento algum, uma tarefa árdua. Acho que não devíamos pagar por transporte. Acho que não devíamos pagar por planos de saúde. Acho que se libertar do dinheiro faria bem ao mundo.

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Lost my grip and my vision gone dull

Apesar de Crystalfilm estourando nos ouvidos amanheci conseguindo enxergar o futuro com certa nitidez, como se alguém tivesse gentilmente levantado uma ponta do tecido escuro que me encobria e permitido que eu visse alguma coisa que estava lá, intacta. Era meu. Eu não tinha expectativa nenhuma, todavia. Ou pelo menos queria me convencer de que não tinha ou teria. Enganar a si mesmo às vezes é o único recurso disponível para não enlouquecer. Sheila diz que sonhou com o ex. Se sente arrasada. Quando comento, ao segundo tropeção só no caminho de casa até o ponto de ônibus, que ela levantou para cair, ela desajeitadamente se ajeita e responde com ar melancólico, quase infantil: “É pra ver se vem um príncipe e me levanta”.

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Estou profundamente arrependido por ter acendido aquele cigarro minutos atrás, me sinto um completo idiota, talvez porque tenha agido como um. Pelo menos a dor de cabeça desapareceu. Sento um pouco. Ei, sol, me traga um pouco mais de energia, eu preciso. Peço o telefone de um moreno na volta para o escritório e ele diz “não”. Levanto levemente a sobrancelha esquerda e respondo “Ok”. Devia ter dito “Que pena”, com a mais legítima expressão de frustração e malícia que conseguisse. Esperando o elevador, o magrinho conversando com ao celular na minha frente finge que não me vê e ignora minha cara sacana olhando pras calças dele. Mas, ah, eu sei que mais tarde no banho, quando ele lembrar da expressão no meu rosto, ele vai bater a mais notável punheta das últimas semanas e vai se arrepender.

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Mancebia, jovem artista, vida dissoluta, solta de costumes, libertinagem.

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O Rio me escolheu. Eu poderia dizer que Brasília é artificial demais, que há concreto demais e que as pessoas são frias demais, mas a verdade é que só não é o lugar onde pertenço. Pode ser que aqui também não seja. Alguém poderia dizer que o Rio é quente demais, que há lixo demais nas ruas, que há mendigos demais nas ruas, que aqui os bueiros explodem e matam pessoas, prédios antigos caem e que a vida só é maravilhosa na Zona Sul, mas é neste pedaço do mundo que meu coração pulsa mais forte e onde uma vozinha suspira diariamente no meu ouvido “você está vivo”, e então, eu sei, esse é o lugar em que eu deveria estar. Perto da água. Como toda história de paixão, há, claro, muito ressentimento e dor, mas eu suspiro, solto um sorriso de canto de boca, murmuro uma sentença com algum sarcasmo e sigo essa intuição, que é a única coisa realmente sólida a que posso me apegar. Estou vivo. Vivo. Não estou rendido, ainda existe o cavalo selvagem em mim, correndo indômito nas minhas veias, levando-me por essas… Como definir? Essas inexplicáveis, indefiníveis estradas que a vida apresenta aos nossos olhos.

Não consigo conter esse estranho prazer em acender outro cigarro, e depois mais um, segurá-lo com habilidade enquanto procuro alguma coisa nos bolsos, soltar fumaça enquanto converso distraidamente sobre amores, desejo, as trivialidades de uma vida vulgar ou discuto sobre a necessidade de pensar o consumo de drogas de uma perspectiva diferente. De alguma estranha forma faz com que me sinta extra ordinário. Mas é uma mentira, eu sei. Uma mentira canalha. Que Deus me perdoe pelo meu pecado e por tudo aquilo que eu não consegui ser.

No fim do dia estou suado, fedendo a fumaça (quantos cigarros foram nos últimos quarenta minutos? Cinco, seis, nove?), segurando um detergente na fila do caixa, esperando que alguma coisa grande aconteça. Todo mundo espera por alguma redenção. Por aquele momento em que a vida vai deixar de ser apenas um amontoado de coisas sem sentido e se tornará… O quê, afinal, um propósito, uma missão? Me farto dessa busca. Espero. Será esse o segredo? Espero? Espero. Mas me movo, afinal, é na porta que se abre que se deve entrar.

“Em vão, não é!”, grita uma voz na cabeça que ressoa por todo o corpo.

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