Oito

É engraçado e trágico como as coisas se configuram no ambiente de uma assessoria de imprensa, em redações de jornais, revistas, rádios, TVs, sites. Notas curiosas e pequenos furos virando moeda de troca para pautas explicitamente comerciais, empresários, arquitetos e designers sedentos por uma linha em O Globo, obcecados com a ideia de dinheiro e fama, medalhões pavimentando toda a gloriosa trajetória dos filhos (engraçado essa estranha forma de tentar passar o cetro para seus descendentes), jornalistas se exibindo como pavões, alimentando-se do próprio ego, grandes veículos com status de governo, desordem e falta de ética generalizados.

Os mais experientes me dizem para não corar, não me surpreender com o caráter fétido da coisa. Deve cheirar menos mal do que em editorias essenciais, que não são apenas “perfumaria”, como Fabiano se refere ao mundo repleto de luxo e glamour, de bossa e o blá blá blá repetitivo e inânime da decoração. Eu não acredito nessa história de perfumaria. Engenharia, arquitetura, urbanismo, paisagismo, decoração, essas coisas tornam a vida melhor, a existência mais plena e facilitada, até, cômoda e satisfatória. Ou pelo menos deveriam. Todo mundo quer fazer da casa um refúgio. O problema é como o negócio, esse negócio, como vários outros, toma proporções descabidas que o distanciam do ideal. O dinheiro corrompe tudo. Nós corrompemos tudo. O homo sapiens carece de sapiência.

*

Mas essa paixão pela glória não é minha também? Quem negaria essa nossa confusão com os verbos ser e ter? Somos todos obrigados a administrar uma realidade difícil de ser compreendida, que se apresenta todo dia com imponência, e da qual fugimos insistentemente. Esta é a última carteira de cigarro que compro. Os últimos vinte bastões com mais de quatro mil e setecentas substâncias tóxicas que aspiro advertidamente, inconsequentemente para dentro do meu corpo. Inferno.

*

Shut it down.

*

Chego em casa morto. Tiro as calças e despenco na cama, sem sequer escovar os dentes ou lavar o rosto. Já não é mais novidade. Quando acordo também já não é mais dia. Fico agitado, saio de casa, compro uma carteira de cigarro, uma cerveja. Quero sexo. É um sentimento primitivo e instintivo que me abraça às cinco e meia da tarde de um domingo. Qual é?, estou no Rio de Janeiro, há uma orgia em cada esquina. Começa a chover. Entro num casarão que se parece com qualquer outro da região próxima, a não ser pela profusão de luzes vermelhas, pela atmosfera pesada, estética trash, cheiro de putaria. O ápice do clichê de um puteiro bem vagabundo. Em cinco minutos estou chupando alguém. Tempo de pegar as chaves do armário, tirar a roupa, calçar os chinelos, passar a toalha em volta da cintura, prender a chave ao braço. Não sei seu nome, onde mora, o que faz, onde foi que enfiou a porra daquele pau antes de empurrá-lo contra minha garganta. Não sinto gosto de nada.

Um outro me vira de costas e lambe minha bunda inteira, com sede. Hahaha. Provoca, roça e aperta o pau contra as minhas coxas. Gozamos. Mais um, outro ali, e outro. Entro num quarto pequeno, com duas tábuas de madeira em xis acorrentadas ao teto, sustentando um colchão. Há alguém encostado na parede. Gosto do gosto da boca dele. Gosto de tocar o corpo dele. Gosto do cheiro no pescoço dele e de como ele parece delirar quando minhas mãos ordinárias apertam com força extraordinária suas nádegas macias. Fico extasiado pela maneira como ele vai perdendo o controle do corpo, dando-me total domínio sobre cada centímetro ali. Mal consigo ver sua expressão. Esfrego meu rosto em seu peito, pernas. Desço, pego um preservativo no armário, subo, visto. Ouço ele gemer e aquele som me enche de tesão. Quero ser implacável, ajo com força, tomo todas as rédeas. Ficamos horas ali, sendo atração de curiosos, totalmente alheios a qualquer outro movimento. Descemos, acendo um cigarro, pergunto o nome dele. Lucas. Gêmeos e câncer. Sabe o que isso significa? Esse relacionamento está fadado ao fracasso. Ele ri, nada impede que possamos nos divertir enquanto a tragédia não chega. Acha graça. Ele é engraçado. Me faz companhia até perto de casa, depois de comermos batatas.

Falo com minha mãe pelo telefone. Já é tarde, vou pra cama. Não consigo dormir. Não consigo deixar de pensar que amanhã irei continuar sendo infeliz. Que aqueles quatro cigarros ali sobre a mesa podem ser os últimos, mas que não tenho força ou vontade suficiente pra largá-los de vez. Que não vou ligar para o Lucas, nem retornar suas ligações, com medo de enterrá-lo neste imenso buraco negro que criei dentro do peito. Que perderei outras oito horas de vida preso a um trabalho sem paixão, e quando chegar em casa vou tomar um banho e pensar em esvair pelo ralo, junto com o esperma que terei jorrado no chão, enquanto batia uma punheta pensando no gostoso no semáforo ou no atendente do quiosque no posto onze, tanto faz. No fim das contas é só a projeção da presença masculina que eu nunca tive quando criança, não? Três e meia. Preciso levantar às sete. Rabisco algumas palavras num papel qualquer. Guardo.

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