Nove

Working days get in my way as I’m thinking of you.

*

De repente eu sou um homem velho, saindo de casa já um senhor, acendendo um cigarro numa manhã de segunda-feira, num modo habitual de levar a vida, domado. Mas eu sou um apaixonado! Tenho que fazer uma opção entre ser livre, ser um artista, me render àquilo que tem me alimentado por todo esse tempo ou ceder à mediocridade da vida que me espia às ocultas. Quero escrever, quero música, quero cena. Pornografia. Estou andando na rua de pau duro de tesão por ter acordado e ter a chance de um dia inteiro pela frente para estar vivo. Ambiguidade. Sim, acendo meu cigarro com culpa, penso, mais uma vez, em não criar expectativas com relação a coisa alguma, pois assim serei livre. Ou apenas escravo da ideia de não criar expectativas, não esperar. Mas sinto queimar no peito uma ansiedade monumental, uma agitação, um grito ecoando em algum lugar entre minha cabeça e meu coração.

O que acontece se eu deixar de tentar controlar meus pensamentos e movimentos? Viro uma aberração, uma engrenagem solta do sistema? Mas é exatamente o que preciso, desligar, sair da rota. Me sinto à beira de um colapso. Tenho medo de chegar num ponto em que não seja possível voltar atrás e tomar uma direção diferente. Que já esteja condenado a um inferno que assombra a minha existência desde os meus antigos. Então, como eu já devia esperar, estou mais uma vez completamente tomado por essa sensação corrosiva de completo pânico, como se eu fosse explodir, ou derreter. Uma vontade de chorar copiosamente, dramaticamente, de expelir todo o mal em mim de maneira irrevogável. Me encaro no espelho, os olhos fundos, a barba rala. E apesar da performance viril da última noite eu sou um homem fragilizado, despedaçado. Não tem a ver com ser delicado, sensível, mas absolutamente enfraquecido, aniquilado. Eu sou responsável por todo o mal que me ocorre. Quanto antes isso ficasse claro para mim menos sofrimento haveria.

*

Estamos acostumados a confiar no corpo como máquina poderosa. Agora eu sinto dificuldade até para respirar e me pergunto qual é o sentido dessa merda que eu fiz comigo, com a minha vida. Hoje é um dia terrível, a minha falta de fé é perturbadora, já me sinto morto. Carrego minha tristeza nos meus pulmões pesados. Tenho medo de Deus e do que pode acontecer comigo. Uma da manhã. De novo, não consigo dormir. Levanto, vou até a cozinha, passo pela sala. Será que eu gostaria de ver o mundo acabar, agora que a morte me parece tão iminente? Talvez o sentimento de perda seja menor se eu imaginar que com o fim da minha existência as demais coisas também deixariam de existir. Sempre gostei de dizer que não se deve temer a morte, que devemos voltar nossas preocupações para a vida. Mas agora me soa tão irônico que eu tenha dito tantas vezes que eu não queria deixar nada que me interessasse para amanhã, que eu tenha tido tanta sede; soa tão ingênua minha pressa, minha intensidade, minha urgência em ser feliz nos meus pequenos livres-arbítrios. Meus verdadeiros livres-arbítrios.

Meu olho pesa. Se eu morrer essa noite será ouvindo Thunder Love. Não imagino uma imagem mais bonita do que a que paira na minha cabeça ao som de Thunder Love. Não quero velório. Doe os órgãos que puderem. Deem uma cópia desses rascunhos para cada integrante do Little Dragon. Deixo um registro da minha admiração pelos artistas que figuram aqui e ali, uma declaração de amor para o Rio de Janeiro e Brasília, uma manifestação do meu amor pela arte, pelos amigos, pela família e pela felicidade em cada vírgula do que isso se tornou. Meu coração e tudo de mais bonito que eu fui, sou e serei para minha mãe, que nunca duvidou do amor que sente por mim.

*

Queria que essas palavras fizessem sentido, que me ajudassem a entender o que ocorre comigo e com o mundo que me cerca, mas às vezes tenho impressão de que é só mais um barulho na minha cabeça. Oro. Peço ao meu Deus por compaixão, por misericórdia, sou digno de pena e ele sabe. Sinto que ele tem pena de mim. Talvez um pouco de afeição, mas pena, sobretudo. Essas palavras são horríveis, horríveis. Preciso dormir, para esquecer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s