Dez

Não achei, por um segundo sequer, que fosse sentir falta da apatia crônica de Brasília. Brasília é uma cidade frustrada com si mesma, com o elefante branco que se tornou, com o fato de ser um refúgio para toda gente que foi para lá sonhando com uma vida melhor e o que tem em mãos hoje é uma existência entre o bom e o mau, o grande e o pequeno – embora eles estejam satisfeitos. Mas tenho sentido falta de casa, dos amigos, da família que deixei naquele pequeno quadrado repleto de concreto, no meio do cerrado. Me sinto numa montanha russa carioca com uma enorme vontade de expelir pela boca em golfadas tudo o que tenho recebido de pior desde que pisei os pés aqui. Começo a pensar, agora, que o problema está em mim e vai me perseguir onde quer que eu esteja. Não é minha também essa ausência de afetos e paixões, essa imobilidade, que me fez sair de Brasília e vir para cá? Respira fundo. Me sinto culpado pela tragédia à espreita, pela sorte dada ao azar. É impossível se sentir diferente quando não se sabe se a vontade de Deus é apenas chamar sua atenção ou sacudir de vez, drasticamente e negativamente, sua vida. Ou levá-la. Todas as minhas virtudes estão obscurecidas pela ideia da morte.

Em noites frias como esta choro com vontade de ter de volta tudo aquilo que um dia reneguei sem saber que por alguma razão eu poderia querer ter de novo, ver de novo aquela jovem senhora, a paisagem plana, o céu indecentemente belo. Mas voltar seria pior. Não posso voltar. Não quero voltar. Eu quero não querer voltar. Seria despedaçador ter de encarar as pessoas a quem eu amo e contar dos muitos abusos cometidos nesses tempos absurdamente loucos. Das transas sem camisinha, dos cigarros, da ostensiva quantidade de drogas. Não tenho a família perfeita, grande, unida e compreensiva que o meu amor tem. Definitivamente, não tenho. A família que eu tenho, como não poderia deixar de ser, é assustadoramente disfuncional. Ora, não faria sentido se não fosse assim, certo? Sou um reforço em carne e osso dessa arte milenar de produzir e reproduzir estereótipos. A igreja diz que é maldição. Estou amaldiçoado desde antes da minha existência por essas forças que atuaram sobre os meus ascendentes como atuam agora sobre mim. Senti isso quando frequentei os cultos, senti depois de tentar conversar com minha mãe sobre sexualidade por duas horripilantes vezes, e acordar da segunda investida às três da manhã com ela ajoelhada sobre o peseiro da cama, em oração. Minha mãe é uma mulher transformada pela fé. Uma fé que infelizmente não é a minha. Não agora, não da mesma maneira. Queria, como Sócrates e Alexandre, viver em um espaço de tempo em que o conceito de homossexualidade fosse inexistente. Não por covardia, mas por convicção. Caralho. Odiaria passar por isto aqui e odiaria voltar para casa com um diagnóstico de qualquer doença. Me enlouquece. Minha única saída é ficar livre disso tudo, ter uma nova chance, eu preciso de uma, sei que já disse isso antes.

Não me sinto bem. Passei o dia inteiro fazendo um esforço monstruoso pra respirar. Nos meus piores dias, como o de hoje, esta quarta-feira insípida da qual não será preciso emprego de força alguma para esquecer, me transformo no pior tipo de infeliz, aquele que responsabiliza o outro pela própria infelicidade. Eu costumo culpar a Deus por tudo aquilo que eu sou e por tudo que não consegui ser. Endereço a ele a responsabilidade pelas desventuras desses vinte e quatro anos, pelo horror do abuso, da violência, do sentimento de inadequação, pelas ausências. Quando eu penso que, merda, eu tinha seis anos de idade quando vi um homem pôr o pau na minha cara pela primeira vez… Aos seis anos eu já não tinha pai, embora eu o tenha visto pela última vez aos dez, doze. Dos seis aos dezoito, sofri todo tipo de humilhação física, psicológica, emocional, numa época em que ninguém sequer tinha ouvido a palavra bullying. Nos dias felizes costumava olhar para o passado com olhos positivos, mas em dias tristes como o de hoje eu lembro do sentimento impiedoso de alguém que surra um rapazinho efeminado na frente de quatro amigos dele, que, assustados, não manifestam um grunhido sequer. As pessoas passam pela rua e ninguém faz nada. Em dias tristes como o de hoje eu lembro do sentimento de ter o corpo magro atingido por pedras, que você não sabe de onde vem, quem atira, por que, da dor dilacerante do coração partido uma, duas, três, quantas vezes, afinal? Isso justifica alguma coisa, explica alguma coisa ou só entedia? Culpem a síndrome de Jesus Cristo. A vida é bárbara e eu adoro a ambiguidade que essa palavra evidencia.

*

Jecoaboca (em tupi significa “ficar diferente, mudar, alterar a função”).

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