Onze

I could never have what you have.  

I’ll be the thief, boy.

Amei você com toda a força que eu tinha. Naturalmente, tentei reprimi-la, mas meus diques não foram valentes o suficiente para a  robustez do tsunami. Portanto, era óbvio que a destruição viesse, mais cedo ou mais tarde, e eu estava consciente, embora não a desejasse. No nosso caso, a ruína foi o aniquilamento total da nossa amizade, ou seja lá como posso chamar o tipo de afeto que nos manteve próximos durante todo esse tempo. Amei incondicionalmente, paradoxalmente: o amor, o sentimento, estava lá, não podia ser abalado por nada, mas eu exigia paciência, controle, mudança, simetria, adequação. Você tinha tudo o que eu admirava, tudo o que eu queria. Você era, com a minha idade, o homem que eu queria ser. E reunia, também, algumas das habilidades mais sórdidas que um ser humano pode ter. É irônico que por tantas vezes eu tenha discursado contra seu mau hábito de fumar, e agora seja um fumante compulsivo à beira da morte. É irônico que eu use o tempo verbal no passado pra falar de nós, agora. Nós não existimos mais. Nós existimos algum dia?

Eu sinto falta do jeito como você soprava fumaça na minha boca, da incrível disposição para viver a vida, da família excepcional que você tem e que o ama tanto e de tudo aquilo que você é e eu não, tudo aquilo que você tem e eu nunca vou ter.

*

Fico sentado esperando a marmita esquentar. Pagar dezessete reais por um prato de salada e um pedaço de peixe é inviável para alguém nas minhas condições. Mas é o que tem de pagar nos restaurantes mais baratinhos do Leblon quem precisa comer fora. Olho pela janela, vejo o mar soberano e implacável. A natureza sim, é viva. Não há um traço de alegria no meu rosto, não posso estar vivo. Não preciso esperar qualquer diagnóstico. Preciso parar. Parar de abrir espaço para o mau em mim, parar de sacrificar parte tão significativa da minha felicidade em nome do dinheiro. Devia ter ido fazer a porra daquela chapa no peito. Preciso voltar ao posto de saúde, preciso ver minha mãe, preciso dos meus amigos. Não aguento mais. Preciso respirar, preciso que meus pulmões voltem a funcionar, preciso sair desse escritório de merda e buscar algo que me traga um mínimo de dignidade, ainda que não traga dinheiro. Ou ganhar muito dinheiro, vender a alma para não precisar fazer nada além de cuidar bem de mim e dos meus.

Arroz, feijão, farofa e uma coxa de frango. Falta tempero no frango e a carne está um tanto dura. O resto está bem temperado (talvez Acássio tenha exagerado no sal do feijão). A comida já está fria, mas achei uma sala vazia na cobertura e não preciso mais comer no banco da praia, debaixo do sol escaldante do Rio e do vento apocalíptico que toma a costa de vez em quando.

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