Doze

Vinte minutos dentro desta sala é suficiente para que eu queira ir embora. Só agora me parece claro qual é a ordem das coisas, não só numa perspectiva local, mínima, mas numa dimensão macro. E, confesso, é desanimador perceber como certos maus modos e estados de ser e fazer cercam tudo o que o homem toca. Inventam-se números, criam-se importâncias, convive-se com jornalistas donos de egos assustadores, brincando de ter poder, agindo como déspotas, trabalhando em empresas igualmente controladoras, monopolistas, arcaicas. É medonho que as pessoas se envolvam nisso a ponto de perderem o sentimento de clemência de homem para homem. Fabiano tem uma maneira muito didática de explicar: imagine um segurança na porta de uma boate badalada. Todo mundo ali é rico. Ele não. Ganha mal, muito mal, mas ali ele tem o poder. A mesma coisa ocorre com os jornalistas. É o momento do gozo, quando todas as frustrações são descontadas. O prazer precisa vir de algum lugar, afinal, para que ele se sinta vivo.

*

“Se a pessoa, depois de fizer essa série de coisas que eu dou, se ela consegue viver de uma maneira mais livre, usar o corpo de uma maneira mais sensual, se expressar melhor, amar melhor, comer melhor, isso no fundo me interessa muito mais como resultado do que a própria coisa em si que eu proponho a vocês” (Cf. O Mundo de Lygia Clark, 1973, filme dirigido por Eduardo Clark, PLUG Produções).

Para mim, ser artista não é mais do que usar da sensibilidade, de um talento, da disposição de vida, da própria dor, se for o caso, para transformar o mundo num ambiente realmente coletivo, para tornar a experiência de vida de cada um mais humana, mais viva, melhor, ainda que de maneira insignificante, pelo valor do ideal. Todo artista é um pouco Deus. São esses homens e mulheres que me inspiram, é para eles que eu olho com olhar de compreensão, de conexão. Estamos ligados. Eu sou, também, um artista. Embora assumir isso tenha sido e continue sendo mais difícil do qualquer um possa supor, não me resta dúvida, hoje, de que não sou e jamais poderei ser nada além de um artista.

Suspeitei quando me encolhi em posição fetal ao fim de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, numa noite chuvosa que deixava menos seco o ar de Brasília e reduzia os efeitos da poeira dentro de casa. Suspeitei, de novo, com meu desnorteio ao fim de A Vida Secreta das Palavras; de novo quando chorei num misto de alegria e desejo de desforra ouvindo Céu cantar Nascente, dirigindo pela W3 Sul, rumo ao trabalho que pagava minhas contas às custas da minha felicidade. E depois de novo, com a filmografia de Almodóvar, Todd Solondz e Mike Leigh; e de novo, e de novo. Nada de muito novo, o que logo se tornou motivo de suspeita, também. Havia sensibilidade demais ali.

Não quero fazer nada além da arte. Não posso, simplesmente não posso. Apesar da dor de ver a cultura tão sucateada neste tempo enganado pela devoção capitalista, é da arte que eu quero viver, é dela que eu quero extrair cada gota de felicidade. Não há, não há, não há qualquer outra coisa que me entusiasme tanto quanto a possibilidade de criar algo que mexa com a estrutura de alguém de maneira tão positivamente transformadora. E não há nada que me dê mais vontade de estar vivo do que isso. Mesmo que para isso eu tenha de camuflar essas palavras entre uma frase e outra, um parágrafo e outro de um release fajuto sobre um produto fajuto para um mercado igualmente fajuto.

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Só o que me sobra é essa vontade de escrever, de explodir em palavras, de rasgar, sangrar, de me recompor, através, atravessado nessas palavras que eu vomito, lanço pela boca, pelas mãos, numa ação metade desespero, metade redenção. Porque, eu sei, o que escrevo é só meu, é o mais verdadeiro de mim, é a minha carne e a minha alma, a realidade e a fantasia da vida que eu imploro, a metafísica de mim. Mas é também de outro alguém, alguém diferente de mim mas como eu, que se sente como eu, que se reconhece numa frase qualquer disso que é o meu parto.

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When your banks pack up to the edge and still you sad.

Fabiano tem um senso de humor ótimo, ácido, sarcástico. Talvez já tenha dito isso. É extremamente funcional, também, bastante objetivo. Amanda, não. Ela não é bem-humorada – é engraçada, dependendo do seu, no caso, meu, humor. Numa manhã qualquer, no alto de seus saltos, vestida com conjunto de blazer e calça de tecidos nobres, ela dispara a sentença que eu escreveria em sua lápide. “Manda fulana ganhar dinheiro. Quando ela ganhar dinheiro eu escuto o que ela tem pra dizer. Quando ela tiver de dinheiro eu até a chamo pelo nome”. Nada a definiria tão bem. Sessenta e quatro anos lapidaram esse comportamento pouco ortodoxo, capitalista com dentes afiados. Contenho a minha perplexidade mas não consigo disfarçar meu tom grave e impaciente quando tento lhe fazer algumas perguntas. Que merda. Quanto mais você se aproxima dos holofotes mais você percebe a decadência dos valores dos personagens dessa cena bizarra. Fica claro pra mim o exato grau de envolvimento que não me viola e eu quero mantê-lo.

*

O horóscopo pede para que eu me afaste por hoje de substâncias que alterem minha consciência. Ignorei e dei dois tapas numa pontinha. Deitei na cama, pus os fones de ouvido, botei Little Dragon pra rodar. Me sinto bem, apesar da tosse. Lembrei que na adolescência lia livros de astrologia, uma bichinha esotérica, veja só. Acho que nunca entendi direito do que trata a astrologia, embora sempre tenha feito completo sentido para mim. Tanto sentido que em certo momento achei que não precisava entender nada, só sentir. Mas me assusta, também, devo confessar, essa sensação de que existe um espião interno relatando com detalhes as passagens emocionais da minha vida. Mas também me ajuda a lapidar a intuição e fazer da lucidez menos intermitente.

Não li os clássicos, nenhum deles. Tenho aqueles que aprendi a chamar de clássicos. Pântano de Sangue, O Tronco do Ipê (um clássico, talvez?), o livro que Fernando Sabino escreveu inspirado por suas memórias de infância, qual é mesmo o nome? Sinto que minha memória me boicota constantemente, devo estar mesmo fodendo meu corpo com tanto cigarro e maconha. Preciso de sexo. Olho para meu rosto no espelho e vejo um homem. Talvez haja alguma virilidade sendo anunciada pelo meu olhar perdido, pelos movimentos tranquilos, pela seriedade um tanto rabugenta, o volume mínimo da minha voz grave. O Menino no Espelho. A Paixão Segundo G.H., que me deu ideia de quem era Clarice Lispector e da importância que sua figura me teria. O Clube do Filme, que me fez pensar na paternidade de uma maneira tão bonita e tão consciente. O Pequeno Príncipe, que me ensinou tudo de mais importante que eu sei, hoje. Nunca li tanto quanto gostaria e não posso esconder esta frustração pungente.

Nunca fiz amor como gostaria, também. Nunca fiz amor. Vinte e quatro anos. Não consigo sequer supor a quantidade de homens com quem já transei, mas estou certo: nunca fiz amor. Nem mesmo com Chloe, que eu poderia dizer, dada as circunstâncias, foi a coisa mais bonita que já me aconteceu. Chloe foi a única mulher com quem transei. A conheci no meu primeiro mês no Rio. Ela estava hospedada em um dos apartamentos do casarão quatrocentos e oitenta e dois da Monte Alegre, onde havíamos alugado uma quitinete linda que foi a coisa mais próxima de um lar que me lembro de ter tido. Chloe era norte-americana, não falava nada em português. Na primeira vez que saiu conosco aprendeu a falar “sou piranha” e fez uma música pegajosa com apenas essa frase, que virou tema de muitas noites. Ela é rapper, tem uma banda com outras duas garotas e elas vão explodir. Elas podem ser grandes, agora mesmo. A música que elas fazem é incrível, quente, criativa, viva, divertida, altamente contagiosa. Elas são o que há de mais descolado que eu conheço. E Chloe é louca, extraterrestre, bizarra e apaixonante. Transamos esparramados em colchonetes no quarto. No fim, perguntei se ela  achava que meu pau era pequeno e fino e ela disse que não era, não, e que gozou duas vezes, inclusive. Com exceção das características do meu pênis, que era sim bem menor e mais fino do que os que ela costumava me mostrar em seu IPod, acho que não mentiu. É provável que a experiência não tenha tido tanto valor para ela quanto para mim, mas agora que ela se foi há um carinho recíproco entre nós e por tudo o que vivemos, todos, juntos naqueles dias loucos no paraíso.

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