Treze

“O mundo oferece condições nada leves”, mas eu não sou “mero produto de circunstâncias”, certo?

Vivemos em uma época em que a cultura é tão subestimada no Brasil que me sinto privilegiado por poder assistir Tupiniquim Jazz Orquestra e Orquestra Voadora, de graça, do lado de casa. Não devia ser  privilégio. Todo mundo deveria ter acesso facilitado à cultura, que é o que realmente dignifica o homem. Essa é a parte boa de morar quase nos pés da Riachuelo, a poucos metros dos Arcos da Lapa, que é o coração da boemia carioca, como qualquer um que já tenha pisado no Rio de Janeiro deve saber. A André Cavalcanti, como têm mostrado os noticiários, é uma rua sem saída para carros onde se pode comprar drogas praticamente na porta de casa. É também onde fica o casarão onde moro com outras dezoito, dezenove pessoas. Subindo, usando a escadaria, se chega à Santa Teresa, a dez minutos à esquerda do Parque das Ruínas, de onde é possível ter uma vista linda do centro e da Zona Sul do Rio. Na André Cavalcanti há também uma boate decadente, em que estive uma vez atraído pelo karaokê. Lembro vagamente de ter tirado a bermuda em cima de uma das mesas de sinuca.

*

Sair de casa usando meia calça faz com que eu me sinta feminino, à medida que minha cabeça grita que sou um homem. Ser homem mas não ser restrito a isso, como observou Matogrosso certa vez. Saímos de casa para ver um festival de jazz no Arpoador. De graça, ao ar livre, repleto de gente linda. Acabamos indo pra pegação que rola nos espaços mais escuros do Parque Garota de Ipanema, mas, pelo amor de Deus, eu me senti um infeliz por trocar a experiência de ouvir boa música pelo sentimento de excitação e repulsa em ver aqueles homens circulando no meio de galhos retorcidos, em busca de uma meia foda no meio da mata. Por mais que eu seja um homem de pensamento amplo, confesso, de repente, aquilo me soou tão deprimente quanto parece e a minha vontade foi sair correndo dali, mas Acássio já tinha se enfiado em uma vala qualquer com alguém, como boa putinha que ele sempre foi. Então, esperei sentado nos enormes degraus do que parecia uma escada até que ele aparecesse e então fomos embora, andando por Ipanema, cansados, completamente duros, eu com aquela meia calça completamente grudada no meu corpo, me achando bom demais por encarar com bravura aqueles olhares hostis. Um (im)perfeito outsider. A verdade é que me surpreende mesmo que as pessoas se espantem com um homem andando de meia calça na rua e não se horrorizem com a fome, as doenças e a falta de investimento em educação. Vejam, eu sou um bom homem. Deixem-me em paz.

Chegamos em casa tarde, mas fui para o computador, entrei num chat gay e marquei encontro com um cara que mora há quinze minutos de casa, na Henrique Valadares. Com exceção do fato de que ele talvez seja um dos homens mais bonitos com quem eu já fui pra cama, o sexo foi péssimo. Não tenho saco pra esse tipo de tara em me fazer de mulherzinha. Pra mim, o homem que transa com homem, pelo menos o que transa comigo, precisa saber que está transando com outro homem e não com um costume play de mulher. Tudo bem, eu estava usando meia calça, mas isso não significa que tenha que gemer como uma atriz pornô de quinta categoria. E o cara bateu na minha cara. Meu único comentário com relação a quem gosta de bater é: se vai fazer, faça bem feito, não me leve a acreditar que o único trabalho pesado que suas mãos fazem é escovar o cabelo antes de sair para o trabalho. Ainda me perguntou se eu queria cuspir a porra dele na pia e fez cara de surpresa quando eu disse que já tinha engolido. Pelo menos eu respondi “não, parei”, quando ele perguntou se eu queria um cigarro. Voltei pra casa em silêncio, incomodado com alguma coisa, pensando em me programar para ir em um dos cultos da igreja que o Acássio me mostrou na contracapa daquela revista gay horrenda. Depois das experiências que tive, indo regularmente à igreja para expulsar os demônios cuja influência me levava a transar com homens em banheiros públicos, bambuzais, ruas semi-desertas et cetera, seria incomum ir a uma que não se importa com quem eu divido a cama.

Acordei meio perdido no dia seguinte, por alguma razão achei que estivesse em Brasília, mas era só aquela familiar sensação de acordar e ter de ir para o trabalho que você detesta, que insiste em me acometer assim que abro os olhos. Em Brasília não era diferente. Passei todo o dia me perguntando seriamente (eu realmente queria saber) se em algum momento ficaria satisfeito fazendo qualquer coisa que não fosse arte na vida e a resposta foi uma britadeira perfurando meu coração enquanto eu preparava um mailing de revistas de luxo, ou oferecia um release repleto de pequenas mentiras, “perfumaria”, para algum jornalista que se acha Deus nas redações cariocas, paulistas, universais. Para bom entendedor meio coração estilhaçado basta.

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