Quatorze

I have no mask

Meus rins doem. Fiz uma pesquisa no Google, mais uma, e o diagnóstico é tuberculose. A doença do amor, como imortalizou Alexandre Dumas em A Dama das Camélias. Quão irônico ou predestinado é isso? A doença do amor. Nunca li A Dama das Camélias. Fui ao posto de saúde, marquei uma consulta para quinta-feira. Preciso resolver de uma vez por todas esse problema e minha única posição a respeito é a de alguém que está e quer continuar vivo. Procurei por artistas que haviam sofrido de tuberculose e descobri uma relação entre tuberculose e literatura, vejam só. Comentei com Acássio e ele demonstrou surpresa com a minha ignorância. Voltei naquele inferninho na Cinelândia durante o fim de semana. Dei para um homem sem rosto no darkroom. Chuparam meu pau como nunca. Um cara pediu para beber minha urina. Até tentei, mas não consegui expelir uma gota sequer.

Acho que tenho vivido sob pressão demais. Tenho tentado ser resiliente, suportar a dor, mas vejo meu corpo ruir em resposta. Para que servem as vacinas que tomamos? E se for algum método de controle científico? Quero ter um filho. Quero poder criar um filho. Agora. Não, não posso. Que espécie de surto é essa?

Brush the Heat me excita. Não sei se é o tom grave de Yukimi, o coro silábico hipnótico, o apito em diferentes frequências em cada metade da música, antes do gancho para o refrão, ou os trinta segundos finais, sacanas, com essa combinação instrumental maliciosa, esses batuquezinhos putos. Mas a letra é espiritual, também. Não dá para pensar só em matéria quando se está sem máscara, sem defesa, quando se é só carne nua sob as estrelas. Carne nua sob as estrelas.

*

“Todo mundo mente, principalmente jornalista”. Ah… Quem diria que um dia eu teria minha própria Miranda Priestly? Apesar do gosto pelas frases inescrupulosas, Amanda e eu temos coisas em comum, para minha surpresa. Ela costuma tomar decisões importantes no trabalho de forma intuitiva, é apaixonada por música, dispersa, meio autista. E ela diz que hoje entende porque é preciso se aposentar. Eu também. Quatro da tarde. Choro vendo lindas boleiras que me lembram da vida que eu quero ter. Viver é essa experiência catártica, da qual não se sai vivo. O resultado de tudo, no fim das contas, é a morte. Quando eu for embora as cidades continuarão a existir, e tudo que terei deixado são estas palavras. Não sei o que elas são, o que será feito delas, não sei de absolutamente nada, e, de repente, era exatamente assim que eu devia estar. Sei tudo o que preciso saber. Era este desapego que eu buscava, mas eu sei, não vai durar. Nada dura na vida, tudo passa, para a dor e a alegria. Estou farto de escrever.

*

Estar aqui não é obra do acaso. Serendipidade é o nome, certo? Não escolhi vir para o Rio de Janeiro, não tenho essa convicção, apesar de poder dizer que usei minhas próprias pernas e a vontade era, sim, minha. Tem algo comigo, aqui, cuja explicação vai além das possibilidades de compreensão. E, às vezes, eu sinto isso de uma maneira tão clara… quase explícita.

*

Outras vezes eu me sinto despersonalizado, descaracterizado, como alguém que não tem identidade, representatividade, natureza própria e relevância. Me sinto só. Há dias em que acordo e não sinto nada. Nada. Fiz uma chapa no peito hoje. Fico abismado com a minha total falta de senso de direção, levei muito mais tempo que o necessário para chegar até o local do exame. O que isso diz a meu respeito, além do óbvio? Fui ao supermercado. Talvez eu não saiba amar. Voltei pra casa. Não quero mais sair. Não quero escrever.

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