Quinze

Sou uma criatura pouco cerebral, refém de uma intuição histérica, centralizadora, indomável. Estou cansado. É um cansaço emocional, sobretudo. Preciso me purificar. Já são dez dias sem cigarro. Há pouco, no ônibus, lembrei que semana após semana o horóscopo me pedia para abandonar coisas, hábitos e pessoas que não me faziam bem. Não percebi a importância do aviso, meus impulsos eram outros. Se eu conseguisse usar mais o cérebro e menos o coração, se eu conseguisse fazer isso… Mas eu só sei sentir, minhas habilidades objetivas são nulas, sou devastadoramente subjetivo, eu, resposta física da ideia de complexidade. Odeio esse cruzamento de Águas Claras e Sudoeste que é a Barra da Tijuca. Esse canteiro de obras imenso misturado com essa paisagem infértil de prédios espelhados, esse espírito corporativo e consumista impregnado em tudo. A Barra é diferente de todo o resto do Rio. Não tem, definitivamente, o mesmo espírito. É muito mais parecida com Brasília. Merda de trânsito infernal. O caralho. Vontade de acender um cigarro e deixar tudo morrer.

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A minha mãe deve se lembrar, certamente com alguma dor, da primeira vez em que disse que queria viver sozinho. Devia ter quatorze anos, talvez um pouco menos. Meu desejo era real. Foi uma grande frustração ter de esperar até o término da faculdade para fazê-lo, definitivamente. Mas a minha mãe pertence a um grupo muito peculiar de mães que não podam seus filhos. Ela me preparou, talvez até sem consciência, para sair de casa. E ela confia em mim, creio que intuitivamente, já que não nos conhecemos de maneira ampla como deveríamos. Acho que deveríamos. Pais e filhos carregam essa dor.

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Dias bons. Deus, como é gostoso lembrar daquele violino, da poesia, dos sorrisos sinceros, nós, ali, sentados no chão, sem nada além de uma bebida na mão, nossas companhias, aquela enorme vocação para ser feliz, para encontrar felicidade nas pequenas coisas. Dançar o silêncio, sambar embaixo dos Arcos da Lapa… Acássio até reclamou de um possível deslocamento de quadril. Dormimos abraçados, minha cabeça encostada em seu peito, a mão esquerda dele acariciando minhas costas. Dou gargalhadas. Viver momentos como esse é uma dádiva e tudo passa tão rápido…

Acordei com vontade de me atirar com entusiasmo, de imprimir tesão em tudo o que faço, de ser cabeça e coração, inteiros. “Onde achar esse entusiasmo, se está tudo vazio”? Sheila, li um texto na revista Trip, anos atrás, e esse texto ressoa na minha cabeça até hoje. Dizia assim: “A palavra entusiasmo vem do grego e quer dizer ‘entronizado pelo Espírito Santo’”. É difícil responder a essa pergunta, porque onde eu encontro o meu entusiasmo pode ser diferente de onde você encontra o seu. Não dá é pra deixar de buscar. A minha crença é a de que precisamos cultivar amor pelo que somos e pelo que fazemos. Se você não consegue é porque tem alguma coisa de errado e aí você precisa descobrir o que é e lutar por aquilo que você julga que é a vida que você merece. Como e quanto tempo isso leva eu não sei, acho que é muito pessoal. Eu repito para mim mesmo o tempo todo, independente da situação, aquela antiga e constante filosofia: Vai passar. Vai passar. O que é bom passa e o que é ruim também. No meu caso pensar assim me ajuda a ter o equilíbrio que eu busco, que eu tenho buscado por todos esses anos. Quando se pensa que não vale a pena tentar ser mais feliz do que a situação permite acho que você mata um pouco do que é bom em você. Eu poderia entrar numa séria discussão sobre felicidade aqui, se existe, como é, onde comprar, se é ou não uma questão de escolha, de posicionamento diante das coisas, mas quem sabe? Eu sei que você quer ser feliz. Toda alma neste mundo quer doses cavalares desse troço. Só o desejo já é suficiente para justificar a busca. Essa disposição para buscar, acho, é o que a gente chama de entusiasmo. Assista Happy-Go-Lucky. Eu amo esse filme e ele me diz coisas extraordinárias. Se tiver sobre você metade do efeito que tem sobre mim…

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I wouldn’t lie to you, blossom

Sem qualquer explicação razoável, eu apenas lembrei de como era doce chamar você de Tigerlilly, e do significado que aquilo tinha pra mim. Porque era como se eu soubesse de algo que ninguém mais sabia e você não conseguia esconder que eu realmente havia descoberto parte tão íntima de você. Isso te deixava desconcertado. Você não sabia da minha pequena alegria por ter sido eu a te mostrar como a ruiva soava e por você ter se identificado tanto. O meu amor era esse da convivência, das pequenas coisas que só fazem sentido para os amantes e você sabe que eu não mentiria para você, florzinha.

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