Dezesseis

Fui à igreja. Boa parte dos conflitos relacionados à minha sexualidade vêm dessa postura tão unilateral das igrejas, para quem eu, enquanto estiver disposto a dormir com outro homem, estou condenado ao inferno, por maior que seja o amor e a misericórdia do meu Deus por mim. Sou pouco tolerante à intolerâncias e razoável demais com as crenças alheias. Se eu for uma alma condenada ao inferno o que poderia ter feito para para evitar um destino tão cruel? Quando eu era um adolescente efeminado, ficava recolhido no meu quarto ouvindo Sobre Todas as Coisas e me perguntando por que Deus não havia me dado escolha. Era uma maneira tão sensível e poética de apontar o egoísmo de Deus, Sua total indiferença para com as minhas vontades e Sua total necessidade de adoração. Eu pedia para ser outro, para não ser uma bichinha torturada por amores não correspondidos e pela solidão imposta aos diferentes como eu. Fui ignorado. Minha mãe diz que eu não tentei o suficiente, mas não me toca a ideia de passar a vida inteira numa guerra tão indigna. Não são, afinal, indignas, todas as guerras?

*

Então, eu finalmente consegui perceber que os padrões aos quais eu estava tão acostumado a ponto de não identificar como agressores estavam se tornando mais violentos, repetindo-se de forma doentia, a ponto de causar danos irreversíveis. Mas não sou só eu. Há quanto tempo tanta gente só se enxerga viva na margem… Porque há um regime que marginaliza o desejo e te obriga a buscá-lo lá, e submetê-lo a todo tipo de crueldade. Mas não é mais novo nem é mais atraente falar sobre isso. Só continua a ser doloroso. Ouvi homens e mulheres reféns de tudo o que representam e eu era um deles.

*

My heart is beating in a different way

Se eu parar agora para tentar entender o que está acontecendo comigo neste momento eu vou enlouquecer. Então, onde está a minha caneta? E aquela lista de arquitetos com quem eu preciso entrar em contato? Minha cara está péssima, eu sei, me desculpe (preciso mesmo?). Dormi mal. Estive até às quatro da manhã envolvido em conversas sobre sadomasoquismo, submissão, passividade, atitude, homens dominadores, sexo indiscriminado em salas de bate papo na internet. Não, não faça essa cara. Já fiz meu próprio julgamento. Fui dormir me sentindo o bípede mais escroto nesse mundinho do capeta, porque não há nada de especial em mim, e eu percebo isso tão claramente toda vez que invisto meu tempo nesse tipo de padrão anestésico. O que uma pessoa que entra numa roda viva dessas quer, se não uma privação total ou parcial da sensibilidade para minimizar alguma dor? Seja lá o que for além, não é o que eu quero. Depois de tanto tempo, por que eu não fui capaz de perceber isso com clareza? Que tipo de doença me consome? Por que eu não consigo me sentir amado o suficiente para abrir mão de cada modo de reação automático em face a esses estímulos?

Faço uma investigação, olho para o meu rosto no espelho, como quem procura vestígios de uma significação especial de si mesmo, para si mesmo, por sobrevivência. Sou um homem, um menino, um anjo atormentado por um passado, pelo descontrole dos impulsos, um adicto. Vou dormir ouvindo The xx, e, claro, vou lembrar de você, porque era o que você gostava de ouvir em dias de chuva, ou quando era abraçado por um sutil sentimento de tristeza. Lembro de nós dois sentados no chão, as pernas sobre nossas mochilas, encostados numa das pilastras da Biblioteca Nacional de Brasília, no coração da cidade de concreto, talvez nosso lugar predileto ali (se desconsiderarmos nosso refúgio na casa de Luci, todos nós nos divertíamos e nos emocionávamos tanto lá, você lembra?), dividindo os fones de ouvido. E lembro da noite chegando, as luzes acendendo numa sequência escandalosamente linda e do meu comentário de que aquela cena era tão bonita que deveria ser imortalizada no cinema. E eu não te disse, mas imaginei que se fizesse isso e por algum motivo alguém pudesse sentir metade do encanto e da alegria que aquele momento teve pra mim, seria o suficiente para que eu me sentisse belo também. Vou dormir me perguntando se a lembrança que esses arranjos provocam é potencializada pela minha enorme dependência de afeto e vou pedir que amanhã eu tenha superado essa espécie de morte, a falência de tudo o que fomos um para o outro. Você jamais vai fazer ideia do quanto foi amado e nunca iremos discutir por que. Mas talvez alguém um dia comente que eu nunca mais pude ouvir She Wants Revenge de novo e que continuo entrando em um estranho estado de melancolia sempre que olho a paisagem de uma sacada, seja o que for que a rodeie.

Mas, de alguma maneira, eu sinto meu coração bater de forma diferente, agora. Não é só o sintoma de alguma moléstia provocada por aqueles cigarros, mas uma visão tão… diversa de tudo o que eu sou, sinto e vivo, que você previu e chamou de morte da minha hipocrisia ou algo do tipo. Não é só o fato de estar numa cidade nova, ou de termos desencarnado um para o outro e virado apenas referências a serem paulatinamente, gradativamente, aliviadamente esquecidas. Não sei o que é, não quero chamar de evolução. Talvez seja o fim. Talvez seja algo mais doloroso: um fim com reticências…

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