Dezessete

Eu tenho as lembranças mais abjetas de você e é fácil perceber que todo o rancor ainda está aqui. Não posso evitar que chegue ao meu hipocampo a ideia de que, ignorados os julgamentos de bom e mau, bem e mal, mocinho e vilão, foi você quem me feriu mais e isso justifica meu sentimento igualmente abjeto. Ou talvez eu só acredite nisso para aliviar a dor de ter visto você ir embora de maneira tão rude. Talvez uma lobotomia resolvesse o problema com alguma eficiência, mas por hoje eu só quero tirar essa canção da cabeça. Eu nunca realmente vou saber se você  entende por que o diálogo final de Joel e Clementine em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, e aquele “tudo bem”, por que eles me soam tão impotentes, trágicos e bonitos, por que eu entendo agora que amar e ferir é indissociável.

Talvez eu possa escolher entre ser feliz e não ser nada. Só não tenho conseguido fazer o suficiente, ser paciente o suficiente, mas eu vou continuar tentando, amanhã, quando amanhecer. Espero que amanheça e espero que eu tenha oportunidade de olhar para mim e reconhecer alguma coisa que seja minha. Eu desejo e eu preciso ser eu mesmo, e não uma imagem projetada de mim mesmo por mim mesmo. Vejo homens e mulheres andando com seus cigarros na boca, uns descontentes com alguma situação em particular, talvez com a vida, de modo geral; outros, vivendo de forma aparentemente agradável, com sorriso no rosto e movimentos leves. Essas observações não me levam a lugar algum, eu sei, mas olhar para o outro é uma forma de enxergar a mim mesmo.

*

Pra ser sincero com você, estou com receio de que meu corpo esteja cobrando por todas as frustrações, dificuldades e maus tratos que sofreu durante esses vinte e quatro anos. Às vezes fico pensando em toda a tragédia que minha mente projeta e então eu quero dançar. Simplesmente dançar. Dançar também cura. Mas quarenta e oito horas e alguns cigarros depois, estou novamente no fundo do poço. Acordo cansado, uma parte morta, outra parte omisso, como a víbora de Tulipa. Eu sou o equívoco. As semanas têm passado longas.

Queria poder descrever as experiências com a mesma intensidade que as vivo… fica sempre tão pouco no dia seguinte. De alguma forma estranha as coisas esvaem-se, vão embora. Resta apenas aquele sentimento de que algo ocorreu ali, mas eu não pude segurar, não pude manter e não consigo recordar. Esse Rio que me banha me faz mesmo bem? Eu sei, sou eu e como eu reajo ao que a vida, o Deus, me impõe. Tento me convencer de que não preciso do drama, não preciso da tragédia, eu posso conviver com a tranquilidade de uma vida bem ordinária. Estou tão cansado. Já disse isso? Mas talvez se eu sair e tomar um pouco de sol, e ver as pessoas na rua seguindo com suas vidas, eu também perceba a minha beleza. Talvez eu sinta que o Deus gosta mais de mim.

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