Dezoito

Passou a me incomodar vertiginosamente o quanto as minhas palavras têm sido negativas, o quanto minha avaliação sobre mim mesmo tem derrubado qualquer tentativa de edificação de felicidade, seja lá o que isso signifique. Eu não quero que a negatividade das vibrações que rondam o mundo sobrevoem o meu céu. Eu quero paz de espírito. Tenho tido medo, tenho estremecido, enlouquecido, tudo que está à minha volta me provoca rápidas, mas constantes, alienações dos sentidos.

Mas, repentinamente, eu não vou morrer. A morte vai deixar de me afrontar porque eu não vou ser mais um menino amedrontado diante dos seus olhos e sussurros. Eu vou viver e viver plenamente porque sem aviso fui acometido por um sentimento de indiferença do mundo. O que me resta, senão viver? Me dê a conta, vou pagar. Não devo mais nada, um centavo sequer.

*

Dias de mudez.

*

Falta humildade na juventude de hoje. Falta apreço pelo conhecimento.

*

Eu vi o horror do abuso se repetir tão covardemente, violentamente, e eu quis atenuar, fazer esquecer, arder menos. É cruel, meu Deus. Eu me perguntei por que tantas vezes e vi acontecer de novo, então eu chorei e me despedacei, usei contra mim mesmo a violência por não saber lidar com as marcas. Eu desisti do Deus, tive fé, fiz um oceano, me tornei maior, menor, menor de novo. Às vezes sonho com ele. Aquela imagem dilacerante que me persegue com variações igualmente desconcertantes e é como perder a vida saber que aconteceu de novo. Acordo sentindo asco. Ignoro. É como perder a guerra.

*

Sem qualquer anúncio eu estava lá, mais uma vez, deitado sobre aquele colchão barato, os olhos fechados enquanto esperava ele gozar em cima de mim, sem saber se o que me incomodava mais era o cheiro do cigarro impregnado no corpo dele, a maneira como ele batia punheta ou o acento estranho que eu notava toda vez que ele sussurrava “gostoso” bem próximo do meu ouvido. Me perdi nos gemidos das cabines vizinhas e fantasiei com um pouco de paz… até que senti um jato quente entre as pernas. Permaneci imóvel e continuei, depois, imóvel, enquanto ele jogou algumas toalhas de papel para que eu me limpasse, pôs a boca sobre meu mamilo direto, fez um leve movimento de sucção, agradeceu, abriu a porta e saiu. Fiquei ali, mudo, completamente mudo, irremediavelmente impuro, sedento por uma coisa, uma coisa, em especial, que eu não sabia o nome.

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