Dezenove

No Rio há mendigos, fezes de animais e ração para alimentar gatos nas ruas, trouxas com drogas escondidas junto às fiações telefônicas e janelas insuspeitas.

*

Essa minha insólita disposição para a loucura, aos devaneios, aos paraísos e ao amor desmedido. Porque, como Clarice, nasci para amar, para ser artista e nasci para morrer, não há razão para fuga ou pavor.

*

Quantos seriam arregimentados pelas minhas palavras, pelo sentimento em comum? Qual seria o meu exército?

*

Falamos sobre alimentar-se de cigarros e sobre imergir na música como experiência sincera.

*

Para que a vida não seja um jogo de cumprir etapas, um pouco de indisciplina, por favor.

*

When I die, I’ll be not aware of who I am

But I’m more alive than ever

To trace my way

Chá de hortência? Não consegui perceber a passagem do tempo. Cada rosto na rua me enterra num universo de possibilidades. Sinto que estou perdendo o rumo. Ainda. São só palavras, faz sentido para alguém, além de mim? É só o que eu posso oferecer. Só a música faz sentido e eu tenho quisto tanto aprender a ouvir e a fazer música. Acho que perdi o medo. Pode ser que o meu caminho não seja a cruz, mas uma resgate. Eu seria grato, muito grato. Não, obrigado. Dispenso o chá. Quero estímulo, pulsação, lua nova.

*

São dias bons e cheios de aprendizado, de histórias repletas de significado. Então, obrigado, obrigado Deus. Por mais dias como este em que a gente se dá conta de que é feliz, que se satisfaz com afeto e comida, comida e afeto, como os cães.

*

Não sei dizer se é o ar frio soprando no meu rosto, agora, a manhã nada exuberante, essa beleza discreta dos dias comuns. Não sei. Simplesmente não sei.

*

Porque escrever é o meu anseio e é também o que me resta. Notícias tristes me chegam de cantos de onde eu esperava inspiração positiva. Peço a Deus sabedoria, tempo, permanência, perdão, alguma virtude que possa me sustentar quando minha vontade for cair e ficar no chão, sob o chão, sobre as nuvens, fugir do espaço e tempo do agora para esquecer qualquer rastro de alguém que eu fui ontem, dos sentimentos de ontem, das velhas covardias. Tudo isso ainda me assombra. Enquanto me restar saúde, comida e livros, estarei bem, acho. Manhã improdutiva, indisposição intransigente, eu não sou nada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s