Vinte

Weltschmerz, abulia, paraprosexia. Bela combinação para manter-se inábil. Me faria bem escrever mais. Escrever exige devoção. Me faria bem, igualmente, alimentar um pouco mais de atitude, parar de viver somente em estado reativo. Ser feliz exige criação, mudança e eu mudo, mais do que gostaria, embora nada mude e tudo mude.

*

É bem provável que você atribua à minha paixão todo o desastre desse relacionamento. Eu também acreditei que tinha posto tudo a perder, que mais uma vez eu tinha sido responsável pela tragédia que eu queria evitar. Mas a verdade, a verdade mesmo, eu sei que você sabe, é que a culpa é sua, por isso você coloca em quem bem entende. A culpa é do seu comportamento egoísta, das dezenas de vezes em que você brigou com todo mundo por conta dos seus equívocos, da maneira impiedosa com que tratou seus amigos e as pessoas que, como eu, realmente amavam você. Então, bonito, eu quero acreditar nos amigos que trazem notícias de você e dizem que você é um homem diferente, agora. Juro, eu quero. A vontade de vê-lo melhor é maior que o desejo de provar para todo mundo que você foi o babaca do século. Eu renuncio a razão, veja como sou generoso. Só o que me provoca raiva agora é perceber que eu talvez não tenha superado nada, ainda, que eu ainda escondo rancores e que imaginar ver você de novo me causa um estranho sentimento de repulsa. Toda a minha frustração se esconde no fato de que todos ouviram atenciosos a versão que você representou de maneira tão convincente. E ela é bem diferente dessa, não? Eu não preciso ser complacente com você já que não lhe faltam candidatos para isso.

Queria ter a tranquilidade de não precisar ensaiar um discurso de superação para os amigos, pra você, para mim mesmo. Porque é cansativo tentar me convencer de que não devo mais me importar com as versões do fim, as causas, e repetir o mantra de que tudo ganha significado diferente dependendo do ângulo sob o qual cada um enxerga. Que se dane. Que se foda, mas muito bem fodido. Meu cu pra essa caralhada toda. A verdade é essa mesmo, eu odeio o que você fez, odeio o que eu senti e como agi, odeio o fato de que você foi tão escroto e mesmo assim encontrou braços tão solidários, porque você tem essa extraordinária capacidade de fazer com que as pessoas sejam tão tolerantes com o seu egoísmo, seu cinismo e sua insensibilidade. Sim, eu odeio esse meu discurso raivoso, esse coração magoado. Mas eu quero que você morra de culpa pela maneira como agiu, quero que me procure, peça desculpas, me chame de amigo. Nem assim você deixa de ser a puta inescrupulosa que você sempre foi.

Devo confessar que eu invejo essa sua habilidade de conseguir de alguma forma justificar suas piores características com essa pretensa intelectualidade, esse jeito bem resolvido de quem não está perdido, que, aplausos, é sua melhor criação. Eu deveria mesmo invejar? Porque às vezes tenho a sensação bizarra de que me tornei uma cópia mal ajambrada de você, de que absorvi as suas piores características. Esse jeito de falar dando ordem, de tratar os mais próximos com menos cuidado do que deveria, essa frustração disfarçada de sarcasmo, essa paranoia disfarçada de motivação, esse desprezo disfarçado de polidez, essa insegurança disfarçada de segurança. Você é um merdinha, no fim das contas, fruto dos meus próprios traumas e dos seus também, e eu sou outro, incapaz de limpar a própria bunda. Mais parecidos, impossível. Por odiar você me odeio por tabela e só posso me perdoar se eu te perdoar também.

Mas já é amanhã, agora, e não sobrou nada.

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