Vinte e um

É tudo sobre acreditar no que se está fazendo. Fé, ou seja lá como você chame. Se eu pelo menos durasse… Se eu tivesse tempo. Mas a sensação é de que vou morrer a qualquer momento. Não, a qualquer momento, não. Agora, num futuro muito próximo. Vou descobrir um pulmão querendo abandonar o barco, sabotar o projeto todo, a garganta, a laringe, vão se esfacelar, calar a  minha voz por completo. Estaria moribundo indo à igreja nos últimos períodos, buscando o perdão de Deus pelos excessos. Acho que desobedeci à lei, certo? Não quero me dar mal, vamos tentar nos acertar, por favor. Mas, não é que eu seja orgulhoso, queria me defender das acusações. Estou sendo muito arrogante?

E aí só me restariam essas letras e o fim. Trágico. Dramático. Creio que ficariam chocados e sofreriam. O que essas pessoas realmente conhecem de mim para apreciar a minha existência neste plano? Bosta, eu quero tanto viver. Sou menino, ainda. Sequer estou perto da metade, embora eu tente ser veloz. Ouço os ponteiros de um relógio em Powa, tUnE yArDs soando deliciosa em toda a sua genialidade, além de suspeitamente pontual. Que viagem. Sono. Larica. Vontade. Alguma coisa em mim acha tudo isso muito interessante mas quer mais. É quando bate a sensação inversa. De vítima para um novo tipo de assassino. Sair dessa e começar a viver. Em frente. Ei, Merril, você é linda.

Tenho me sentido mal nos últimos dias (nos últimos dias?). De novo, tive febre. Acordei exausto, encharcado de suor. Minha mão direita está infestada por pequenas bolhas. Minhas costas doem, meu estômago dói, minha cabeça dói, voltei a odiar o trabalho. Pelo menos não tenho mais que limpar cabines cheias de esperma, nem banheiros cheios de fezes nos boxes. Agora eu fico aqui, observando um homem instalar um papel de parede que imita tapetes de fios de tecidos, um outro martelar o chão, esses homens cheios de tinta, exibindo músculos, sujos dos pés à cabeça. E esse atraso monumental que tomou conta de tudo aqui. Fabiano diz que é o reflexo do nosso país e eu concordo.

Tento, bem devagar, empurrar tudo para fora da minha cabeça.

*

Acássio diz que maquiagem não se combina com a roupa, se combina com o espírito, e eu concordo.

*

Era a lua em escorpião que aplacava um pouco da dificuldade de me relacionar com o trabalho e suas exigências.

Resolvi vestir as meias e sair de casa. A maneira como as pessoas me encaram não me afeta mais, não dependo mais desse tipo de aceitação. As meias aumentam consideravelmente a atenção que os homens dispensam a mim, o que certamente tem relação com a afirmação do meu caráter como homem sexual. Minha confiança aumenta. Não fosse assim eu não teria entrado naquele restaurante badalado a convite de um fotógrafo de interiores requisitado, como ele faz questão de lembrar em nossas conversas, e ainda encontrar Miranda e sua trupe e mais dois ou três clientes dele no meio do caminho, e não me incomodar nem um pouco com toda essa babaquice de um mundo combalido pelo excesso de importância dada ao que não é importante. Sequer com o discurso de que meu guarda-roupa é inapropriado para alguém na posição de aspirante a jornalista numa cidade como o Rio de Janeiro (embora não fosse exatamente essa a minha pretensão), sobretudo neste meio abastado, entre arquitetos, decoradores, empresários, essa gente que se horroriza com um corpo magro coberto por meia-calça e camiseta GG. Não, as minhas pretensões não eram essas mesmo. Contraditório, fiz um discurso de aceitação, tentei conversar sobre coisas mais interessantes que uma saudação a imagens decadentes de um sistema decadente, mas, que importância tem o que você sente com relação ao sistema, não é mesmo? Nenhuma importância, nenhuma.

*

Bastante pressão. Cariocas têm garganta boa, mas a ação é nenhuma. Vale para tudo, sobretudo para os homens. O homem carioca é a decepção do século. Há toda uma enorme gama de comportamentos sendo catalogados como típicos do povo carioca, inclusive pelos cariocas inconformados com uma espécie de atraso social substancial. Lugar nenhum é perfeito.

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