Vinte e dois

Ir tantas vezes ao médico faz com que eu me sinta à beira da morte. E, à parte essa obsessão com a morte que tem me perseguido nas últimas semanas, é quase como se eu estivesse mesmo morrendo. Mas tudo bem, pode ir. Não é nada extraordinário, eu morro um pouco todos os dias, você sabe. Hoje, depois de passar os olhos sobre os meus exames, o doutor me olhou com aquela costumeira rabugice e recomendou que eu procurasse um clínico geral, uma vez que dentro de sua especialidade não havia nada anormal na minha situação. Sorri e disse Muito obrigado, doutor.

Saí da sala minúscula cinco minutos depois de ter entrado, feliz por não precisar voltar. Não estou com tuberculose, o resultado do exame anti-HIV não detectou a presença do vírus (eu quero refazê-lo, para ter certeza), o raio-x mostra meu pulmão limpo, com transparência e circulação normais, silhueta cardíaca normal e vaso da base sem alterações. Ótimo, obrigado ao Deus. Mas eu continuo suando como um porco em algumas noites, cozinhando por dentro de tanta febre, com enjoos cada vez mais frequentes e uma fadiga insuportável. Então, claro, eu não consigo evitar pensar nas piores enfermidades que podem acometer um homem como eu. Gosto de me preparar para o pior. E isso, estranhamente, faz com que eu me sinta mais vivo que nunca, tão perto da morte. Ah, às vezes eu só preciso parar de pensar. Fecho os olhos, paro de escrever, tento morrer um pouquinho, viver um pouquinho, mas minha insegurança berra. O abraço que eu preciso ninguém vai me dar agora.

*

MInhas costas doem inexplicavelmente. Consigo imprimir ritmo a este dia? Troco de roupa. Tiro a pólo caramelo e a calça cinza, escolho a meia-calça com suaves listras, o jeans envelhecido azul claro por cima, com três dobras na barra, puxado até ficar um pouco abaixo dos joelhos, camiseta vinho por baixo, amarela com corte diferente por cima. O par de mocassins velho de guerra nos pés, um cordão prata com o mapa do Rio de Janeiro cravado numa placa retangular. Relógio de LED no braço direito, anel de mustache no dedo anular da mesma mão. Sinto falta do perfume. Pingo colírio nos olhos, coloco os óculos, pego a enorme bolsa cinza escuro, detalhes em marrom. Pareço ridículo, mas é só o meu espírito tentando se recuperar de algo que o feriu. Essas roupas me chegam como fantasias. Nada me veste.

*

Luz. Como esquecer a manhã de quinta-feira que te trouxe luz? Tua entrega. Entrega. Deus é bom, meu coração é bom. Não há dúvida, é só certeza consciente das incertezas fé foco entrega. Luzia, luz, você me deu luz. Você é uma boa mulher e eu te amo. Você me ensinou a soberba, a humildade, a real ousadia. Obrigado.

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