Vinte e quatro

I never ask for much

But please, keep up lover

Alguma coisa revira o meu estômago e eu gostaria de poder arrancá-lo com as mãos. Cada um dos meus poros fala e eu só consigo ouvir ruídos, como um aparelho televisor cujo cabo foi rompido e perdeu a sintonia.

O ano do cão. Do sofrimento que exorciza, esperamos, todos, sedentos por um pouco de reparação. A mulher duas vezes abusada está lá, retalhada. Não atende aos chamados, perdeu o pulso, nada vibra nela. Vibra, na verdade: Observe como a desgraça pode ser percebida só de olhar para seu rosto. Pude perceber só de ouvir o tom arrastado, abafado (o sufocante, desolador tom arrastado) da voz dela. A criança não percebe, mas o demônio está lá, Deus. Salve sua pobre alma. Salve do sofrimento essa jovem mulher, meu Deus. Qual o apelo mais poderoso a que tenho direito? Posso pedir em nome do sangue santo do seu filho? Se eu me calar, o senhor ainda assim pode me ouvir? Vou me calar, o senhor ainda assim pode me ouvir? O senhor consegue compreender na totalidade a minha dor quando eu me deito no chão e não consigo derramar uma lágrima sequer? Quando eu não posso mover um dedo diante da angústia consumindo as paredes do meu estômago? A dor que se torna coisa física e espiritual. E se eu dançar? Aquele rapaz não me disse certa vez que a dança era a melhor maneira de falar com Deus, depois da oração? Ele lia Paulo Coelho.

Eu precisava de um amigo, agora. Eu precisava de um homem bom com braços de abraçar. Não estou mal, estou bem, Marina, embora haja feridas na minha boa alma.

*

Surgiram pequenas bolhas na região próxima ao meu polegar direito. Elas desapareceram, mas provocaram uma descamação da mão, a começar pelo polegar. Sinto a pele ressecada. “O que meu corpo está me dizendo?”, pergunto. Cutuco as camadas mais finas, arranco um pedaço, provo. “Quantas vezes me apaixono até o fim do trajeto até o escritório?”, penso.

*

No fim, até mesmo as mais nobres qualidades são fruto da loucura em seu estado mais puro.

*

E então eu me apaixonei de novo e estava em cenário urbano. Um homem lindo, levemente acima do peso, alto, com senso de humor e sorriso pequeno, bonito, aquela câmera na mão, o olho colado no obturador, fazendo as caretas mais encantadoras que já tive oportunidade de ver de perto. No fim do encontro apertou a minha mão, duas vezes. Tive a impressão de que olhou disfarçadamente o meu crachá para checar o meu nome e de que fez um esforço para memorizar meu telefone quando dei o número à repórter. Foi um prazer, eu disse, no momento em que ele estendeu a mão pela segunda vez, e minha voz quase não pôde ser ouvida. É notável o meu desnorteio diante de um interesse romântico, eu me sinto o mais idiota dos idiotinhas que habitam este universo.

*

Why see the world, when you got the beach?

Na minha doce vida é possível amar o argumento romântico e imaculado de versos como esse como é possível detestar o cinismo deles. Mas eu não acho que tenha razões boas o suficiente para me debruçar sobre isso. Há tanta gente louca no mundo, Senhor. Tanta gente completamente perdida, sem senso algum de nada na vida. Como esse senhor que garimpa o nariz e cola as caracas em baixo do banco, ficando de quatro sobre eles. Não nego minha empatia, mas tenho receio de ficar como ele, forever alone em sua própria loucura, sem conexões.

Talvez eu já esteja?

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