Vinte e cinco

Ah, por Deus, sim!, eu achei que desta vez pararia. Na verdade, estes dois cigarros foram uma recaída sem importância.

É uma linda quinta-feira de sol, veja. Linda, não? Por que eu me sinto assim? Há algo errado. Ouço histórias tristes de povos vizinhos, um jovem homem solto na América sofre. Ele é meu irmão, eu o amo e esta não é a vida que queremos. Há tanto drama, Deus. Quanto drama. Por que eu não posso simplesmente descer deste ônibus agora mesmo e tomar uma cerveja, desanuviar a cabeça, apenas, sem que isso arruíne minha vida? Farto de viver pelo fim de semana, essa porra não é para mim.

Então, eu desci do ônibus. Porque o meu ponto havia chegado. Entrei no prédio, fui à portaria, mas não havia ninguém à minha espera.  Saí, caminhei até a loja de conveniências no posto de gasolina e pedi por um cigarro, a varejo. Eles não tinham e me senti compelido a comprar uma carteira repleta deles. E um isqueiro. Sentei numa calçada, levei o cigarro à boca, acendi e chorei. Eu não tenho saída.

Mas eu tinha, na verdade, porque a palavra salva. Então, eu estaria a salvo enquanto pudesse escrever, enquanto pudesse ler e ouvir, enquanto a lei divina ainda fosse importante no mundo. Fiz o que tinha de fazer, voltei pra casa no fim do dia, exausto, falei com pessoas queridas, ouvi com paciência uma senhora falar sobre o amor de Deus, e eu queria tanto o Deus como um amigo. Eu não queria que meu único amigo fosse um baseado me esperando no fim do expediente.

*

Loving is all I was after

But you couldn’t give it

So I’m moving on

Em meus momentos de lucidez, não há rancor. Talvez (e somente talvez) não tenha sido fácil para você também, embora eu não acredite na sua sensibilidade com relação a isso. De qualquer forma, adeus, acho que tivemos o suficiente. Estive segurando minhas mãos por todo esse tempo mas agora acho que já não preciso mais lutar para combater impulso algum. Posso usar mãos e braços agora para abraçar tudo o que eu sou, cada coisa em que eu acredito e represento. Eu estava mesmo a salvo? Não adianta, não resolve esperar por alguém. Sou eu e eu. Para onde vão essas pessoas? E este cigarro aqui na minha mão? Não quero tequila, obrigado. Já bebi aqui a minha catuaba, esta caipirinha, fumei, dancei. Fiz o requisito. Acho que estou perdendo o pulso. Podemos nos falar amanhã?

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