Vinte e oito

Ele me disse que estava farto de ficar com o pau esfolado de tanto bater punheta e que tinha desistido de tentar encontrar um amor, para sempre. Para sempre certamente era tempo demais, mas ele não via outro caminho. Os escritores eram as criaturas mais assombrosamente solitárias de que ele já tivera notícia. E ele estava se certificando disso. Mas ele não desistiu da vida, ele queria ser Honey Boo Boo, ter a energia, a loucura, a graça e a entrega daquela menina.

Eu observava. Estava disperso, minha atenção se espalhava por detalhes diversos e se compartimentava, eu não conseguia concluir um bloco coerente de raciocínio. E, finalmente, às sete da manhã, eu já me sentia sonolento. Fui dormir. Olhei bem para minha cara no espelho para checar a minha expressão e era a de um homem cansado, o olhar caído, desconcertantemente melancólico, uma frustração com o estado das coisas na minha existência.

*

Eu percebi. Eu percebi que mais cedo ou mais tarde aquilo ia acontecer, bastava ver um rosto semelhante, um gesto, e que aquilo não era bom sinal nem mal sinal. Era um sinal, apenas, de que as coisas continuavam plantadas ali. Mas naquela tarde de nada adiantava a bela vista, o sol de novo, depois de dias de chuva, os pés na areia. Pronto. Mas aquilo era um engano. Porque embora ainda não fosse claro eu era capaz de sentir: eu era um homem diferente. Sem sombra de dúvida, coisas importantes haviam mudado e eu era um homem diferente, agora. Eu não tinha muito na vida além dessa sensação bizarra de que nada de bom poderia me ocorrer mais, mas nem aquilo era ruim. Depois de muitas coisas ruins as coisas ruins simplesmente, magicamente, deixam de existir.

Então, era diferente agora ver um rosto parecido com o seu e não ter vontade de beijá-lo, ou de socá-lo, ou qualquer coisa entre essas duas ações, só a consciência de que um rosto como o seu não passa de um rosto como o seu. Não traz nem mesmo aquele rancor com o qual você se assustou, só a lembrança de que a vida pode mesmo ser diferente das nossas expectativas. Não desejo rostos como o seu e até aquelas características que eu mais amava não passam de uma superafirmação do que eu sentia. Você sabe, esse foi o meu maior erro (e é também o maior erro de todos os amantes): eu quis transformar você naquilo que era perfeito para mim, no ideal que eu tinha construído com tamanho afinco, fundamentado nas quase imperceptíveis pistas que você me deu com esses olhinhos.

A minha voz grave não vai mais bradar pedindo explicações. Está claro. Tão claro quanto o céu desta segunda-feira de ressaca moral, tempo e energia jogados no ralo. Pode até parecer, mas não era o seu rosto que eu procurava enquanto comia a bunda daquele velho e puxava com violência seus grossos fios de cabelo. Era o meu rosto que eu procurava com algum desespero, o desespero legítimo de um homem sem identidade. Eu me tornei despersonalizado, ou multifacetado demais e essas duas linhas me põem em um estado de ser que eu não enxergo como pacífico. E quando foi mesmo que vivemos tempos de paz? Eu buscava a minha ipseidade. Mas eu não estava sozinho, eu sabia, e eu sentia isso.

*

Just let me be your ticket home

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