Vinte e nove

I’m running late again and I’ll miss this place

Ei, moça!

Espero que daqui a algum tempo eu dependa menos dessa necessidade de autoafirmação que eu cultivo aos vinte e quatro. Não quero ter que ficar me provando a vida inteira… Somos indescobríveis mesmo. Não há como ficar nu, exposto, e não há como transparecer. Sempre haverá uma camada: o máximo que se pode fazer é revelar o maior número delas possível, enquanto houver tempo. E “o tempo a tudo empena”, como diz aquele grafite nos Arcos da Lapa. Para o bem e para o mal, o tempo é implacável.

Quarta-feira, nove em ponto. Senhor, proteja-me de todo mal, amém. Eu sou um menininho pedindo proteção. Todos somos, não? A quem você implora antes de perder a vida? Quem, qual é o seu Deus? Há de ser um, ainda que seja Miles Davis tocando So What no momento em que o avião que você pegou para visitar a família explode no chão e tudo se reduza a nada em alguns minutos. Minutos, se tiver sorte. Ou azar.

*

A vadia achava que até o histórico das visitas dela às páginas de internet era uma obra de arte. “Eu sou mesmo uma grande artista”, sussurrava.

*

O atraso está enraizado na cultura carioca, hedonista por natureza. Eu não queria fazer parte disto, mas cá estou. Qual vai ser a desculpa, desta vez? “Perdão, eu queria viver a minha vida ao invés de ter de aturar isto”. Talvez “andei procurando um lugar para pertencer”. Talvez um outro tipo de trabalho. Minha impaciência berra. Eu não consigo mais ouvir esses palhacinhos cheios de soberba repetindo quantas vezes forem necessárias que estão encantados com a “bossa” de uma bosta qualquer.

Gosto quando o 433 passa por Copacabana, na altura do corpo de bombeiros e eu posso ler a frase “nada do que é humano nos é indiferente”, na fachada. É como se estar exposto àquela mensagem constantemente entronizasse aquilo em mim e reforçasse as minhas convicções. Bobagem…

Paus, comida, bebida, cigarros, dança, música, amor, viagens. Poderia ser a síntese da vida mas era só um grupo de palavras arranjadas a fim de encontrar alguma empatia, de refletir uma identidade e provocar algum reflexo. Eram cruas, porque a escrita dele era crua, desforme, desgarrada, livre e ilimitada.

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