Trinta e dois

A gente é violentado todos os dias nas pequenas coisas.

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Dia dois. Minha cabeça dói, meus olhos doem, sinto sono, cansaço e fome. Odeio esse trabalho, odeio com uma força descomunal, mas incapaz. Preciso de roupas novas. Meu guarda-roupa tem incomodado os filhos da puta e eu preciso me adaptar, se não quiser ter uma vida miserável. Os filhos da puta desse sistema de merda, ou seja, todos nós. Fomos todos convertidos em filhos da puta. Sinto falta do cigarro, falta do café e falta de um sentimento que eu não tenho mais. Não vejo a hora de voltar para casa logo, tirar essa roupa, comer alguma coisa, deitar na cama e ficar olhando você batucando as mãos em uma superfície qualquer enquanto escuta música ou cantarola algo baixinho. Volta para o escritório, vai. Leva todo esse sentimento para quem merece, de fato, esse dardo envenenado que parte dos seus olhos. Morra um pouco mais, seu viadinho.

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Ela estava triste e ele pediu a ela que fizesse um exercício com ele. Então, ele levou o dedo indicador da mão direita ao canto direito da boca, e depois o indicador da mão esquerda ao canto esquerdo, e puxou cada extremidade até que ele esboçasse um sorriso – o que ela, acompanhando as orientações dele, também fez. Os dois então sorriram sorrisos honestos e eu achei aquilo de uma beleza tão contundente que eu quis estar ao lado deles para o resto da vida.

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Cansaço, torcicolo, tédio. Eu repreendo coisas que me são importantes, faço sacrifícios em nome de respostas e de vitórias. O meu Deus exige sacrifícios. Mas se eu não encarar como sacrifício, se eu mudar a concepção do ato, talvez doa menos e eu me sinta menos perturbado. Amém.

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Eu me libertei do rancor e da mágoa e eu não preciso mais da sua compreensão. É você quem prova desse veneno, agora, é você quem está contaminado e espalha esse vírus de desconfiança e ressentimento com palavras duras. Não sei se posso chamar de mentirosas com a convicção que eu gostaria, mas a carga de ódio e frustração que vem delas também não aproxima seu discurso da verdade. Você gosta de dizer que a linha que separa amor e ódio é muito tênue, mas a verdade é que não é, não. Talvez paixão e ódio sejam coisas muito próximas, mas amor… você não consegue odiar alguém que você ama, a não ser que você negue o amor e passe a viver uma mentira. Você pode provocar uma série de sentimentos confusos, conflitantes, que às vezes envolvem nossas características mais deploráveis, mas é justamente por haver amor que há conflito. Nem sempre o amor é pacífico, nossos pais podem confirmar essas palavras. E, à parte os seus equívocos, eu nunca tive a intenção de controlar a sua vida tão descontrolada quanto a minha, nem precisei buscar os seus defeitos (até porque eles estavam todos ali, tão corajosamente explícitos).

E embora eu realmente nem sempre consiga domar a minha tendência à manipulação, até os nossos defeitos podem ser usados como ferramenta de amor: artilharia pesada, antídoto contra a doença do desencanto. Eu não preciso me justificar, nem vou exigir nada. Apenas acho, querido, que talvez seja hora de você esquecer o meu rosto, e esquecer também o som da minha voz e as minhas palavras de direção, uma vez que você não faz esforço algum para digerí-las. Direcione a sua energia para algo que lhe faça bem. Com amor.

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