Trinta e três

Sentia falta da música, falta do sentimento de estar vivo, de ter o coração pulsando, ainda. Me sinto bobo, um homem medíocre, um ser menor. Não sei por que razão. Apenas tenho essa triste sensação de que não valho o suficiente. Na verdade, sei sim. É que me boicoto o tempo inteiro, sou meu mais poderoso inimigo. Me sinto vazio, sem fé, atormentado por uma negatividade brutal que parte de mim e dos que me cercam. Mas passa. É o céu. O céu explica tudo. Estou vivo (exclamação). Eu abraço o que eu me tornei e isso envolve toda a comoção do ato.

Ouço cancões que falam de luzes iluminando o céu, cantar para si mesmo, exércitos, círculos, flores, descobrir lugares novos nos lugares por onde passo todos os dias, às vezes mais de uma vez. Não tenho para onde fugir. Isso é bom, me obriga a enfrentar os fantasmas todos. Mas também me condena a viver em uma guerra devastadora. Eu prefiro fugir a viver em guerra. Sou um homem pacífico. Ou covarde, como preferir. Preguiçoso, autoindulgente, perdido. Não me importo, essas verdades não me doem mais. Não dói também saber que não há mais nada especial no mundo. Nada que as pessoas queiram conservar. Nenhum sentimento, nenhum momento, nenhum valor. Assim como não há mais homens, só meninos de todas as idades com barbas no rosto e pose de supermacho, assim como não há mais pais e mães, mas homens e mulheres inconscientes de que ser pai e ser mãe vai além de registros no cartório e presentes de natal, assim como não há mais beleza, só esse borrão abstrato em que tenho de inventar o belo, se eu o quiser.

*

Foi um movimento natural parar e reavaliar a vida que eu estava levando. Um dia antes de receber os resultados, lá estava eu, pensando no quanto fui obrigado, enquanto fora dos padrões com os quais a sociedade estabeleceu seus alicerces, a viver minha sexualidade marginalmente. O mundo é cruel. Ouço histórias de homens como eu, jovens ou não, bonitos, espertos, interessantes, indo toda noite para o Aterro do Flamengo fazer pegação, enfurnando-se em saunas, salões de sexo, inferninhos de todo tipo, marcando encontros em chats na internet, recorrendo a todo tipo de refúgio desse tipo para aplacar a carência e satisfazer o desejo. Só que o desejo, o real desejo, quase sempre passa longe desses cenários. Está no acontecimento natural das coisas, como deve ser. Como deveria ser, apenas pelo fato de que é menos doloroso.

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Você curte fist fucking? Não. Nunca fez? Não, nem tenho curiosidade, na verdade. Mas já vi fazerem, a poucos centímetros do meu rosto. Você gosta? Não. Também nunca fiz, nem quero, mas confesso que me chama atenção uma pessoa enfiando o punho em outra, é muito agressivo e selvagem e me faz ter a sensação de que somos mesmo animais. Não respondi. Acho que o sexo em si, nossa violência e nossos dejetos, acho que isso realmente nos ajuda a lembrar da nossa condição como animal, disse, finalmente. É, ele respondeu. Mas eu gosto de pornografia, disse. Eu acho que a pornografia pode melhorar a vida humana. Poderia dirigir alguns filmes. Sim, poderia caber alguma violência no roteiro. Naturalizar a nudez e o sexo, a sexualidade em sua plenitude, acho que o mundo seria melhor se conseguíssemos resolver essas questões. Claro, você tem razão, ele disse. Toda a razão. Sabe, eu não gosto de hospitais, odeio hospitais, prefiro a morte. Tenho certeza que você nunca esteve realmente à beira da morte. Você já esteve? Não estamos sempre à beira da morte, simbolicamente? Pelo menos se pensarmos que para morrer basta estar vivo, como dizem, acho que sim, faz sentido. Não é que eu caia de amores por ambientes hospitalares, pelo contrário, mas graças a Deus eles existem, certo? Sim, sim. Claro.

Aquela conversa havia me extenuado de uma maneira inédita e eu precisava sair dali e reencontrar alguma inspiração para viver. Então, eu projetei aquela imagem como um universo todo, paralelo, e eu, que me observava e observava de fora quadro por quadro, pude fechar os olhos e imaginar que o mundo era um lugar bom, em que as pessoas eram humanas na extensão completa da palavra humano, que, sim, considera o erro, mas considera, sobretudo, a capacidade de extrair e guardar os melhores resultados de uma experiência, seja qual for a experiência e seja lá o que isso signifique.

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Me perdi ali olhando aquele sem número de pequenas ondas, aquilo me passava calma, toda a calma que eu precisava. A natureza tem esse extraordinário poder de estar presente em todos os lugares. Mas esse é um péssimo dia para existir.

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Onde houver uma mulher arrasada com o abuso e o término de algo que um dia a salvou, o ex-marido na cadeia, o corpo e a alma repletos de cicatrizes; onde houver um jovem que conforta o namorado que se descobre soropositivo, longe de tudo o que conhece; a senhora de sessenta e um anos devastada por uma sucessão de tragédias; a doméstica que dorme fora de casa e abre mão da própria vida para alimentar os cinco filhos vivos de dignidade, sofrendo a vida mais ingrata, penando por um pouco de descanso; onde houver uma mulher e uma criança que sentem falta de um pai, a mãe de uma linda menina que só teve um homem na vida e quer mais, mas está insegura. Onde houver a mulher subestimada, violentada em seu desejo, saciando-se de pecado; a criança tatuada; o homem que não encontra amor; o homem que nega o amor; os que calam a voz; os que não são fortes o suficiente para tentar de novo. Aí estará o meu coração para partilhar e absorver a dor e a tristeza. Eu não vou deixá-los pra baixo, não vou deixá-los sozinhos e eu vou levar o que de melhor eu puder oferecer. “O amor como ferramenta é um objeto contundente”, e eu vou usá-lo para golpear com força tudo o que estiver no caminho.

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