Trinta e cinco

“Não há nada no mundo que permaneça ou nos pertença”.

Eu gosto do hálito dele. Tem algo no cheiro dele, na ansiedade do beijo dele. A minha saliva e a dele combinadas eram como a mais nutritiva e deliciosa seiva em todo o universo, substância essencial para nossos corpos e almas.

*

A canção daquela manhã era instrumental, melancólica e vinha apenas dos sons da própria voz. A sensação de calor e a chuva fazem com que as baratas saiam de seus buracos, ou de onde quer que elas se escondam e infestem as ruas. Ando pela calçada desviando de seus corpos rápidos. Chove todo fim de semana. Durmo tarde, acordo tarde, passo as tardes em casa, cozinhando, sentado em uma cadeira de plástico, em volta da mesa de madeira com tampo envelhecido e do resto dos meus móveis sem nenhuma assinatura.

*

Não sei como agir do seu lado. Fico sem saber sobre o que conversar, troco palavras, gaguejo, evito contato direto com seus olhos, sinto uma vontade incontrolável de tocar seu corpo. Estou encantado pelo seu sorriso, pelo seu cabelo, pelo tom da sua pele, pelo volume da sua voz e pela tranqüilidade com que você caminha nesse mundinho indecente. Estou de novo cercado por essa ansiedade típica dos apaixonados, esse “se você vem às cinco desde às quatro começarei a ser feliz”. Mas nada naquele som me seduzia, aquilo me trazia memórias que eu não queria reviver. Eu não estava feliz e sabia por que. Eu não queria de volta a angústia de ter somente o ideal, a imagem, longe do alcance das mãos. Não quero viver de novo o terror desse processo. Só quero ter um amor sadio e possível, estou certo de que não é muito. Eu tenho a oportunidade de fazer diferente  dessa vez, tudo diferente, e, talvez, escape ileso. É uma tarefa difícil.

Mas dividido entre os uivos guturais dos cães e os roncos do meu estômago, não consigo dormir. Meu sono escapa e o pensamento vai direto para o seu rosto, especificamente para a indecifrável, indefinível, indizível, encantadora, reveladora, não pernóstica, não dimensionável beleza do seu sorriso. A poderosa beleza do seu sorriso, a esfuziante, indecorosa, sentimental beleza do seu sorriso. E então eu não quero dormir, mas apenas deitar do seu lado e me sentir propriedade sua, ou vice-versa, todo sol, com seu sistema de planetas e satélites girando em torno da minha existência, à minha completa disposição. Eu já me sinto seu, amor. E é tão forte e tão revelador que eu já seja seu. Não quero um homem que precise ser cuidado por mim, mas um homem que mereça ser cuidado por mim e você merece, com esses olhos de amor, esse corpo robusto, essa barba e essa energia verdadeiramente especial. Eu viveria todos os meus dias dispostos a fazer você sorrir, porque eu já devo ter dito, talvez não com ênfase suficiente, mas eu amo o seu sorriso.

*

Te amo. Como têm sido os últimos dias? A semana passou voando, não? Deitado no chão do quarto, os pés na varanda, atravessando a porta, um cigarro aceso na mão direita, Tiffany Lou reverberando no espaço. Não vestia cueca, os botões da camisa estavam todos abertos. Quase não havia nuvens no céu, mas havia uma névoa sobre a minha cabeça e um peso desconfortável sobre as minhas pálpebras.

Levo meu corpo ao extremo. Vivo sob uma cortina de fumaça tóxica e tenho a forte impressão de que a minha loucura afasta as pessoas. Sou mesmo um homem incomum. Meus valores, minhas atitudes, as pessoas não compreendem que eu sou uma criatura de amor. É esse o meu dom e é só a minha intensidade, o meu nível de comprometimento com a vida. Estou disposto, absolutamente entregue, esse é o meu portrato. Não tenho tempo para posar de Prima Donna, nem de amansar os meus instintos. Quem não me conhece que me compre.

He died with his mind in fire
And his jeans half on

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