Trinta e seis

It started when I was young and now it is in my lung

*

Cafés, bebidas e cigarros me ajudam a lidar com a ansiedade e destroçam meu corpo. Toneladas de fumaça, uma enorme quantidade de cafeína, álcool, comprimidos. A dureza das relações humanas, dos sistemas, das regras, dos códigos, contra a delicadeza da minha carne, sob o exoesqueleto do caranguejo. Sou obrigado a rompê-lo, num processo repleto de dor, se eu quiser continuar.

Tanto já foi dito sobre a demora desse processo… Não quero mais dizer nada. Talvez falar seja um enorme equívoco. Talvez deva apenas mencionar mais uma vez que eu acredito em mim como artista, como homem, e que isso me ajuda a me manter vivo. Sei que já disse muito. Sei que me perdi algumas vezes, que não usei as palavras tão bem quanto deveria. Eu continuo errando.

Outro cigarro. Quantas histórias começam (e terminam) com ele? Queria que Deus acreditasse em mim. Mas há coisas que precisam ser mudadas e não é mais viável postergar decisões. É agora. Sem medo, sem dramas, é agora. Está tudo no papel, as respostas precisam ser claras, esse é meu ponto de virada. Vamos lá, fale comigo, mediador. Eu preciso ouvir. Sim, nada nunca vai ser suficiente e eu sou feliz com muito pouco. Sim, eu continuo errando.

Mas as pessoas precisam ser inspiradas e eu posso fazer isso. Só preciso ter vontade suficiente. Eu não estou tentando provar nada a ninguém. Não. Só preciso manter a esperança que arde no meu peito agora. Tenho o agora como propriedade, nada mais. Quem daria o braço a torcer? Eu não. Aqueles que me inspiram também não. Eles me ensinam que nem sempre seremos compreendidos, abraçados, estimados, queridos, mas que a arte, a própria existência, são independentes dessa aceitação. Então, vou continuar cantando para mim. Que coisa mais clichê, eu sei. Mas é isso. De alguma forma, sou eu quem preciso compreender a época em que vivo e me projetar à frente. Eu poderia dar trinta e seis motivos mas “bitches brew” basta.

O meu coração é um lugar tranquilo agora e eu quero manter essa paz, porque eu morro quando ela vai embora. Penso nisso durante os dois primeiros cigarros depois de quase um mês. E depois de uma boa foda. Olavo. Gosto de como me soa esse nome. Gostei da maneira como ele beijava as minhas costas e da energia quase transcendental que ele teve sobre mim. E então começa tudo de novo: Semáforos, bancas de revista, lanchonetes, calçadas, calor. Durmo completamente nu, acordo completamente excitado. Por que você não está aqui mesmo, amor?

Que fazer? Falar mesmo sobre o calor infernal dos últimos dias? Seu cérebro sendo cozido por essa supernova? Da falta de tesão pelo trabalho, da solidão? Do cigarro aceso que eu seguro? Prefiro falar que esse mundo só gira por causa dos sonhadores. Porque “a humanidade precisa de sonhos para suportar a miséria, nem que seja por um instante”. E talvez, por atraso da minha geração ou da próxima, eu só me torne realmente grande depois da minha morte. Talvez essas palavras só ganhem significado para alguém além de mim depois de eu não mais existir. Quantos quadros Van Gogh vendeu em vida? Às vezes é necessário um respiro de tempo para que certas coisas sejam melhor compreendidas. O tempo…

Eu não sei qual é a minha grandeza mas sei que ela existe. E só o que vai perpetuar essa grandeza é a minha própria história. O meu olhar precisa ser destemido, curioso, não há por que domar a minha imaginação. A vida é um milagre e esse milagre é tudo o que eu tenho. Nunca fui bom em olhar para o futuro, mas talvez seu olhar me dê alguma esperança, Clarice. O otimismo não é uma espécie de fé? O otimismo não está ligado a uma ideia de futuro, de esperar? É tudo criação e o atraso é provocado pelos traumas. Estou deixando-os para trás, junto com a casca nesse tanque. Fico com a criação. Fico com a dor. Me disseram que eu jamais sairia ileso daquilo que eu crio. Mas antes de ouvir, eu senti. Eu não quero estar ileso.

Da minha parte, eu posso finalmente ser alguém que não precisa sentir medo. Neste ponto da vida, eu posso dominar as inseguranças e abraçar características que há pouco estava empenhado em abolir. Não é tanto uma questão de mudança, embora seja, mas de ser generoso e repleto de amor. Eu quero dizer sim e eu quero conservar aquilo que me é excepcional. De alguma forma bastante ampla estamos vivendo um mesmo período emocional, nutrindo-nos de nossas experiências, numa espécie de autofagia. E, mais do que isso, alimentando as três virtudes teologais. Não estaríamos vivos se não fosse assim, certo? O meu batismo nesse rio foi deveras uma transformação.

*

Eu podia dizer que te amo apenas pelo beijo que você me deu ontem, e eu juro, era como se eu tivesse cavalos selvagens correndo nas minhas veias.

*

Mas a mediocridade é um demônio persistente e talvez ele jamais me abandone.

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