Trinta e sete

Olho para esta beleza inacreditável diante dos meus olhos, e, se isso não pode salvar o mundo, se isso não pode me salvar, não há outra maneira de fazê-lo. Estou perdido, então, condenado a esse vazio e à apatia dos dias cinzas? Quem sabe eu não possa mudar de assento e ter alguma vista nova da cidade? Ou quem sabe apenas voltar para casa e dormir um pouco mais, comer alguma coisa, tomar um banho decente.

Em casa, eram tantas as pulgas e elas eram tão selvagens que interpretei como uma praga bíblica com profundo significado. Eu não entendia nada, claro, apenas me coçava dos pés à cabeça e me sentia tão mal com aquela situação… Aqueles insetos me usavam, me sugavam. Eu os detestava como imagino que um cão os deteste. Minhas pernas e pés estavam em estado medonho, repletos de marcas e feridas e eu pensava que, agora sim, não me faltava mais nada, eu tinha cumprido com louvor todas as etapas do processo de ser um perdedor e agora eu era um Perdedor, com inicial maiúscula, claro, para reafirmar a importância do título. Usar o tempo no passado era uma boa maneira de imaginar que essas pequenas mortes não me afligem mais (são tantos os tempos…).

Pelo menos pelas próximas quarenta e oito horas elas não existem mais.

*

De novo. A esta altura, acho que posso dizer que não preciso mais do que quer que seja que um dia você teve a me oferecer. Melhor do que isso talvez seja dizer que não quero mais nada, nada que venha de você, nem mesmo uma palavra amiga ou um olhar de afeição qualquer. Apenas não quero. Durante algum tempo, olhar para as nuvens púrpuras no céu me trazia um sentimento de pertencer a um tempo e espaço que por mais agressivos que fossem comigo, não eram meus. Mas agora existe um outro tempo, em um mesmo espaço, um tempo que fala comigo e suas palavras são boas. Tão boas que me dão vontade de chorar e de calar todas as outras.

*

Queimou o dedo do meio da mão direita com o cigarro. Minutos depois, aproximou-se do mar. Estava à margem daquele mundo líquido, do universo submerso do mar, a água ameaçando-lhe os pés. Então, ele submergiu a mão na onda mais branda, apagou o cigarro na areia, recuou alguns passos e com pontinhos espaçados no chão desenhou a palavra paz. Em letras médias, mas pungentes, maiúsculas: PAZ. A onda seguinte apagou o desenho, mas o significado de tudo aquilo seria devastadoramente fascinante. Nada resistiria. Doze do doze de dois mil e doze. Havia um canal energético novo no horizonte, embora as nuvens ainda guardassem seus tons púrpuros doces e agradáveis. Uma névoa se formava sobre a água.

No dia seguinte, acordou atrasado e foi feliz para sempre (Desculpe, acordei com uma forte dor de cabeça, tive de tomar um comprimido e deitar de novo por alguns minutos. Ah, e pegar o elevador transformou-se em uma tortura, pensei em subir estes onze andares de escada, mas você sabe, sou um fumante, seria impossível. Foi isso. Ou quase. Talvez eu só tenha pensado em acender um cigarro e não pensar em muita coisa enquanto me preparava para mais um dia como esse, como esses últimos, esses dos quais tenho tentado me livrar. Bom, você não precisa acreditar, só me deixe em paz por alguns instantes, por favor).

Mais dois cigarros, dança, trabalho, conversas, a perspectiva do fim de tudo, do começo de tudo, do eterno vai e vem das coisas, das coisas que não voltam mais, da liberdade de usufruir de qualquer coisa, de qualquer forma, como um processo de escolhas e consequências.

A caneta estava nas minhas mãos, eu era o autor.

*

Mais cedo, eu estava pensando: gosto do modo como você escreve sobre cigarros. Você trata com a franqueza possível a questão da liberdade. Fez de uma ceninha um ato filosófico autêntico, sólido, relacionável. Mas, panoramicamente, sua escrita parece buscar mais uma forma narrativa própria do que a narrativa em si. Como se seu mural não contasse uma história. Tenho a mesma sensação, às vezes, com relação às palavras que cuspo. No fundo, todo personagem fala de nós, não é? Talvez não haja mesmo uma história para contar.

*

Eu vou tentar ser o mais honesto possível. Fiz isso hoje. E ontem. Tem sido este o meu caminho até aqui. É um caminho de paz, agora, que se abre com asas ágeis, fortes e confortáveis.

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