Trinta e nove

*

Foi à praia, tirou os sapatos, sentou na areia, encarou o mar. O mar sempre lhe trazia as respostas que precisava. Mas naquele dia só havia o barulho das ondas e mais nada. Insistiu, subiu a barra da calça, mergulhou os pés na água… Nada. Nenhum sinal, nenhuma palavra. Estava completamente absorto em seus pensamentos quando um jovem ambulante se aproximou com algumas pulseiras na mão. “Posso te mostrar um pouco do meu trabalho?”, perguntou. Havia algo doce nele. “Olha, você pode até mostrar, mas eu não vou levar nada”, adiantou. “Tudo bem, pelo menos eu sento aqui um pouco, troco algumas palavras com você. Andei o dia inteiro”.

Foi um discurso de amor. Digo, claro, a quem olhasse seria apenas um ambulante vendendo pulseiras e um cliente atencioso, mas eu posso garantir: foi um discurso de amor. O amor criava obras belíssimas. Como quando Sheila recebeu o namorado em casa e preparou a torta de limão mais deliciosa que alguém pôde, um dia, elaborar. Não era apenas a mistura de uma porção de biscoitos, manteiga, leite condensado e três limões que criava aquele sabor estupendo. Era uma dose contundente de amor, ele não tinha dúvida. Realmente não pôde levar a pulseira, pelo que se desculpou, mas deixou o jovem ali na areia dando-lhe a certeza de que estava saindo dali com algo muito mais valioso.

*

No dia seguinte, abri a caixa de e-mails e encontrei uma mensagem do chefe com elogios pela performance, cobrando, entretanto, mais comprometimento. Exigia mais dedicação, recomendava a leitura de O Globo “de cabo à rabo”, uma vez que “todo mundo aqui bebe dessa fonte”. “Você escolheu ser jornalista, certo? Para obter êxito, é preciso ter disciplina”. Ah, chefe, você deveria saber: assessoria de imprensa e jornalismo são coisas completamente diferentes. E outra: Você pode escolher ser o que quiser, mas no fim do dia você é aquilo que é e ponto. Eu não sou um jornalista. Sou artista, mesmo que eu tivesse escolhido ser veterinário. E mais uma: Disciplina nunca foi o meu forte, principalmente quando não tenho paixão pelo que estou fazendo.

Queria muito ter dito tudo isso a ele, mas sou um covarde. Respondi apenas que a empresa paga o meu salário e que entendo o “toque”, muito direto, por sinal, como um pedido que estou disposto a atender. Farei o possível para me manter atualizado. Colado ao e-mail, como anexo, um texto elaborado por um publicitário e lido diante de alguns formandos do curso de administração, onde o autor dizia que “Hitler não matou seis milhões de judeus pelo dinheiro”. “Ame seu ofício com todo coração”, era o conselho. “Trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso”. “Não dê férias a seus pés”. Talvez a intenção tenha sido a melhor, mas se a razão era inspirar alguém, aquilo soou apenas como um discurso corporativista, repleto de más referências e palavras equivocadas.

Tudo o que eu queria… Não. Tudo o que eu precisava era achar algo que me trouxesse a paz de saber que não estava desperdiçando tempo e disposição, algo que me desse a sensação de que estava construindo qualquer coisa realmente valiosa. Sair na rua vestindo um shortinho e balançando um leque com um pedaço de tecido na ponta me desafiava muito mais do que um trabalho que não se sustenta sem mentiras. Eu estava sendo exigido, cobrado por algo que eu não tinha tesão em fazer.

Eu não queria me dedicar àquilo, eu queria ter a oportunidade de fazer algo que eu realmente gostasse, me identificasse, algo que fizesse meu coração vibrar tanto quanto estar diante de um trio elétrico pulando sem parar, com pessoas filmando com seus telefones celulares a sua empolgação diante da música. A minha energia contagiava as pessoas, eu podia sentir. Era isso que eu gostaria que o meu trabalho provocasse e eu não consigo isso sentado em um escritório olhando para imagens de poltronas que custam o valor de um automóvel, almofadas que valem as compras que alimentam cinco bocas famintas durante um mês inteiro ou cinzeiros que pagam três vezes o meu aluguel. É ridículo.

Quando voltei do intervalo de almoço quase passei pela porta e dei de cara com a janela. Eu queria ultrapassar a janela, e, se não tivesse a oportunidade de flutuar, queria cair, me estraçalhar e depois me reconstruir, pó por pó, dar forma a uma coisa nova que não é nada daquilo que trago no peito hoje.

Então, eu decidi fazer o que deveria ter feito desde o primeiro dia em que senti meu estômago revirar dentro daquele escritório. Pedi licença e subi até o vigésimo oitavo andar, olhei para aquelas vidraças e percebi que eu poderia quebrá-las facilmente se arremessasse uma daquelas cadeiras com base em alumínio e estofamento revestido em tecido náutico em direção a elas, e depois teria tempo mais que suficiente para me atirar dali sem que ninguém pudesse fazer nada.

Eu tinha ido até lá apenas para ter certeza de que eu poderia fazer isso, se quisesse, mas eu não queria. Então, desci, apanhei as minhas coisas e disse “adeus”, da maneira mais digna que uma pessoa pode fazer. Esse é meu fim e meu começo. Não havia nada diante de mim, e se havia, eu não conseguia enxergar. Apenas uma claridão, uma vastidão de branco e azul, como um céu que eu finalmente podia abraçar com as asas em desuso que eu tinha. Atrofiadas, mas minhas. Eu as havia redescoberto e o céu seria a minha morada.

*

Escrever é o mais próximo que o ser humano pode chegar daquilo que chamamos de liberdade.

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