Quarenta

Passava o dia ali, sentada naquela cadeira branca de plástico, a bolsa em transversal no peito, apoiada no colo, um livro em cima, o cigarro na boca. Vigiava carros, resmungava com clientes desrespeitosos e maus pagadores. Se fazia frio ou chovia, recolhia-se a a um canto da marquise do prédio mais próximo, ou sob o toldo do restaurante vizinho. Se fazia sol, procurava alguns raios. Muito sol e buscava a sombra de alguma árvore. De novo, só mesmo alguns rostos e um traço diferente rascunhado  no muro. Quando chegava em casa dava o que comer aos netos, punha-os para dormir. Via um pouco de TV e se agarrava novamente aos livros, já na cama. Estava quase no fim de Pedro Páramo, pela sexta vez. Aquele era provavelmente o título mais complexo que ela já havia lido. Mas como não abria mão dos desafios que julgava valerem a pena, talvez arriscasse uma sétima leitura. “Devora teu tempo, se agarra nas tuas pequenas loucuras e delícias. E o que de felicidade for seu, terás”.

O despertador tocou cedo na manhã seguinte.

*

Ele não sabe, mas ele precisa de mim. Ela também precisa e eu preciso de ambos, porque eu me alimento do desejo e da grandeza deles para compor a minha própria grandeza.

*

A esterilidade desta paisagem me provoca cólicas de tristeza. Não conheço uma terra mais infértil. Meus tempos aqui já acabaram, mãe, e a tua bondade é a única coisa da qual sentirei falta. Vou para longe, rumo a uma terra em que é outra a minha fome. Esse território é seco, e daqui eu não levo nada, a não ser o sentimento de que nunca pertenci a esse lugar.

*

Gato, de otário nem a cara eu tenho mais.

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Todos os dias um mundo acaba em mim. Mas sou eu quem preciso fazer dessa porra algo importante. Eu sou o homem que eu quero ser ou não? Pelo menos eu poderei dizer que essas foram perguntas legítimas de um coração pulsante, selvagem, real e inspirado.

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Frio. Só este cigarro me aquece. Amanheço com um sentimento de desajuste com as coisas ao redor. Pessoas morrem em tragédias estúpidas. Pessoas nascem em razão de atitudes estúpidas. Lembrei de você. Três dias com a lampada queimada, sem saber como trocar. Hoje, até usa a panela de pressão. Evolução. Às vezes só precisamos de um estímulo, um utensílio para obter luz artificial que deixa de funcionar e nos torna íntimos de uma escuridão.

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O Rio é pornográfico de tão lindo e a vida é pornográfica de tão plena e fugaz. É a beleza imagética, geográfica, física do Rio de Janeiro, mas sobretudo a beleza deste sentimento de renovação e transformação que a cidade injeta em você de maneira rápida e violenta. Uma urgência de vida, uma espécie de sede.  Falo de toda a subjetividade desse meu discurso e de como os lugares se sustentam das histórias que construímos em torno deles. O sol é mais do que uma estrela, aqui. O calor, os mendigos e aqueles a quem chamamos de cracudos, os bueiros, as baratas, ração para gatos, cães, carros velozes, pessoas suspeitas, pessoas insuspeitas, ônibus, pessoas que reclamam com o motorista do ônibus, gente bonita, gente feia, gente, sexo, água, areia, cigarros, bebidas e a vida que eu tenho agora, que é igual e é diferente do que previa. Todos nós falamos das mesmas coisas, de um sentimento que é muito maior que a trajetória de qualquer heroi. De um sentimento que é o próprio redentor.

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Lapa Lapa Lapa Lapa, Estados Unidos da Lapa, Lapaland, Lapinha, Lapada na Rachada, Boemia, Frevo, Fervo, Caldeirão. Eu sabia que sentiria falta de casa e que quando estivesse ali, perto daqueles imensos arcos, meu coração reagiria em descompasso e eu iria sorrir.

*

Um cigarro aceso, o copo de cerveja na frente, as pernas cruzadas, os carros, as árvores, a chuva fina. E ele pensava em como se salvar, como não sucumbir à experiência de estar ali, aquele momento na sua vida e todas as especulações, as energias. Os cabelos negros  traziam sobriedade, o tom era ameno, a sensibilidade era absurda, abrangente, ríspida. Ele gostava do tom alaranjado daquele prédio, do fato do apartamento no segundo andar estar vago, do galho tomando uma parte da vista da janela. Ele não se preocupava com o que as pessoas iriam pensar, ele se preocupava em ser claro o suficiente para não ser interpretado com equívoco. Mais um cigarro, o dia seguinte.

Não havia nada de realmente transgressor naqueles inferninhos, nenhuma esperança no rosto das pessoas, que dirá tesão. Não havia mais redenção no sexo, pelo menos não daquela forma. Talvez se houvesse um pouco mais de dor, se fôssemos para um lugar onde os sentimentos fossem um pouco menos impuros, menos contaminados com os ideais, menos superficiais. Impuros, que seja, se isso simboliza honestidade. Porque o sexo também é uma experiência espiritual, embora envolva a plenitude física. Talvez se seu estivesse num tempo e lugar em que tudo fosse mais livre das pretensões e falsidade, em que eu não precisasse das amenidades, dos disfarces, só da vontade… Mas eu estava lá sozinho, não havia ninguém como eu, ninguém para mim.

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