Quarenta e um

Só queria alguém que pudesse aceitar a ambiguidade da minha natureza, confortar o meu olhar cansado com um olhar de desejo até pelas minhas fraquezas e inseguranças. Algo que não se abale com as minhas variações de humor regidas pela lua, com a minha escrita rasa e previsível.

Morrer nem era o mais assustador. As pré-mortes eram mais dolorosas do que a morte em si. Desfalecer, depois de muita dor, pode ser aliviante. Sobretudo se a morte simboliza um renascimento, mas não creio que seja esse o caso. Eu não renasço mais. Pensei na morte ontem enquanto Túlio afundava o pau na minha garganta até o último centímetro. E ali, com o rosto colado entre as virilhas dele, me ocorreu que talvez já não reste nada em mim que eu queira manter vivo. Túlio me fez cheirar a cueca que ele usou durante todo o dia enquanto fodia a minha boca e eu saí de lá com uma estranha sensação de paz, mas uma paz que assopra no meu ouvido que a morte é iminente. E talvez naquele dia mesmo eu tenha perdido algo em mim. Pode ser que uma grande tristeza tenha ido embora de vez ou pode ser que o inferno esteja apenas começando. Se realmente estiver, não estarei aqui para vê-lo.

Serei o muso undergorund que namora o motorista do ônibus. E o gastrônomo. O tatuador, o músico, o escritor, o chapeiro do podrão na esquina, o executivo, o pornstar (ou o fluffer, se eles ainda existem), a fotógrafa, a cantora, o arquiteto, o pedreiro, o mecânico, o bad boy, o servente. Com seus “medos bobos e coragens absurdas”.

O sexo tem consumido todos os meus dias, exatamente como outro vício qualquer, uma droga tão poderosa quanto outra qualquer. O vício é uma muleta. Algo maior que uma vontade ou uma opção. A propaganda na TV diz que sexo é vida. É o extremos dos clichês (sabendo que nada pode ser mais verdadeiro do que o clichê), mas como negar? Sexo é vida, sim, e é por isso que sempre encarei a pornografia como redentora. A pornografia é a arte mais bela de todas porque é um estímulo instintivo a continuar vivo. Como a morte estimula a vida. Não deveria haver dicotomia. Botton diz que “não deveríamos ter de escolher entre ser humano e ser sexual”, e eu concordo.

“Deus abençoes o paradoxo”, ele respondeu, depois de considerar. Carros, janelas, uma cidade inteira acordando, viva, um planeta pulsante, um organismo vivo.

*

Eu podia cantarolar para o meu coração teimoso que preciso de amor.

*

Tanta gente bonita nas ruas. Chega um momento em que você não quer olhar mais, porque acaba se sentindo um idiota.

*

Quando chegar o dia, talvez nem eu, nem você, percebamos. Provavelmente estaremos alheios um ao outro e apenas os sentimentos que nos embalam diante da dança frenética da vida nos diferencie de outros milhares à nossa volta. Talvez seja cedo, talvez seja tarde, talvez na Lapa, em Santa Maria ou em Amsterdam. No outono ou no verão. Mas, até lá, eu não posso dizer a você o que há de errado. Talvez tenha algo a ver com ter transformado meus vícios nos meus únicos amigos, os mais sinceros e os que mais me machucaram, ou talvez essas relações só existam como reflexo. Sei que você é bom o suficiente para que eu não precise ser perfeito, e que teremos centenas de pequenas bondades para perpetuar, manias para transferir, erros para compartilhar, e reparar. E assim, seguiremos a vida, com seus desencantos e desencontros, encontros e pequenas felicidades. Pelo menos não estaremos mais (tão) sós. Eu estou esperando por você, com o coração aberto. Desde já, eu te amo.

*

E lá estava eu, na escada rolante: a nove degraus do amor da minha vida.

*

Então eu estava completamente envolvido na atmosfera de um homem de sobrenome Silva, e era a loucura mais perfeita que qualquer um poderia imaginar. Ele tinha a grandeza da comoção em torno dele e uma pureza no olhar, uma pureza inviolável.

*

A vida é isso, esse é o livre-arbítrio. Se você pode escolher ser feliz, por que vai escolher o contrário? A vida precisa ser melhor que BBB.

*

Já estou me sentindo uma bêbada na sarjeta, na batucada da vida, como Elis despejou nos meus ouvidos em algum momento da minha adolescência, quando eu era apenas uma bichinha louca, desvairada, hipnótica, sedutora, condenada.

*

Desconfio de qualquer estado do homem que não seja o de uma criatura vulnerável.

*

Definitivamente, eu estava vivendo pelo fim de semana. Todo fim de semana era uma libertação. O trabalho como eu conhecia só me trazia infelicidade, apesar de pagar as minhas contas, comprar os meus cigarros e permitir que eu enchesse a cara e sentasse nas calçadas mijadas da Lapa sem me preocupar com qualquer reputação que eu tivesse a zelar. Pagava por algumas prostitutas de vez em quando e a entrada em muitos inferninhos, onde dava a bunda ou enfiava o pau em qualquer buraco que encontrasse.

Mas eu nunca me satisfiz com apenas isso. Eu nunca consegui e não foi por falta de vontade. Eu teria outras escolhas, se fosse mais inescrupuloso, mas para mim elas são tão ou mais ultrajantes que me enfiar naquele escritório e ficar olhando para aquelas imagens de objetos de valores estratosféricos, convivendo com essa gente medíocre. Isso é morte. E toda vez que eu entrava por aquela porta eu sentia morrer um pedaço de mim e há poucas coisas na vida tão tristes quanto isso.

Eu já devia estar farto de reclamar, de fato estou, mas tomar qualquer atitude quando não se sabe o que fazer é muito difícil. É difícil saber o que fazer quando não se tem dinheiro, pais, confiança, oportunidade. Então, só me restava não acabar com a integridade que ainda me restava, e eu estava fazendo um trabalho de esforço considerável se o plano fosse o exato oposto. Talvez eu gastasse algum tempo para falar sobre como adotamos deliberadamente os arquétipos dramatúrgicos em nossa vida. Ou como ele é um retrato da própria trajetória humana. Inspirado e inspirador. Mas eu não sou herói nem anti-herói. Não sei o que sou. Não sou nada além de um poço de angústias.

*

Quando paro para ouvir a mim mesmo, percebo que estou me sabotando de novo. Eu sou o meu atraso. Não posso responsabilizar nada, nem ninguém, a não ser a mim mesmo. Claro, há coisas que não dependem de mim. Mas até que ponto eu dependo dessas coisas? Confirmo cada vez mais a teoria de que acidentes não acontecem. Nós os provocamos. Pode soar drástico, mas é isso. Por que provocamos acidentes, talvez seja complexo demais arriscar explicar. Uma explicação talvez trouxesse algum equilíbrio. Um pouco de esforço talvez traga algum equilíbrio. É preciso vencer a preguiça e o medo. Parar de imaginar demais, de raciocinar demais. Parar de pensar? Parar de querer? Parar?

A minha intuição e o meu corpo estavam me dizendo que eu estava fazendo alguma coisa de errado. Eu temia perder a saúde, que sempre me foi o bem mais precioso. Eu queria viver e não o contrário. Eu estou vivendo, finalmente comecei e jamais gostaria de perder o que tenho e tudo que está por vir, as realizações que eu procuro. Só a realidade interessa, embora eu também me envolva em um plano e estado místicos. Mas o que eu sinto é real. Eu acho. Eu estou vivo. E são. Não quero perder.

*

Ela olhou nos meus olhos como alguém que pudesse me desvendar apenas com aquela ação. “Posso te dizer uma coisa?”, perguntou. Tremi. Já era. Eu queria saber, apesar do medo. “Você é burro”, ela disse, com firmeza. “Burro. As pessoas se aproveitam de você, sempre foi assim”. Lembrei instantaneamente de como você provou dia após dia que não era merecedor do meu amor e consideração, mas era tão bom estar ao seu lado que não pude evitar deixar você me machucar de novo, e de novo e mais algumas vezes.

Não era só você, no fim das contas.

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