Quarenta e três

The worst thing about living a lie is just wondering when they’ll find out

Eu preciso da solidão, e preciso também do êxtase efêmero dos encontros. É urgente um equilíbrio de excessos, se isso é possível. É uma maneira de combater o pensamento uniforme, a vida uniforme, o espaço uniforme de um sentimento. Uma busca por equilíbrio que envolvia até os cabelos (o cabelo, por exemplo, tinha um tom levemente avermelhado cobrindo os fios negros, confundindo-se entre eles numa fusão perfeita. O corte reunia a praticidade dos fios curtíssimos e a beleza dos fios longos, ondulados). Mas ela não dava a mínima.

*

De novo. A esta altura, acho que posso dizer que não preciso mais do que quer que seja que um dia você teve a oferecer. Melhor do que isso talvez seja dizer que não quero mais nada, nada que venha de você. Durante algum tempo, olhar para as nuvens púrpuras no céu me trazia um sentimento de pertencer a um tempo e espaço que por mais agressivos que fossem comigo, por mais que controlassem e exigissem de mim, como pais e mestres severos, não eram meus. Mas agora existe um outro tempo, em um mesmo espaço, um tempo que fala comigo e suas palavras são boas. Tão boas que me dão vontade de chorar e de calar todas as outras. Então, adeus, bom homem.

Eu tranquilamente rejeito aquela negatividade, os pensamentos mesquinhos, as atitudes bobas de jovens corações feridos. É fácil se iludir em um mundo como o nosso, fácil fazer e fácil acreditar em promessas e palavras cheias de significado, que, ainda assim, não passam de palavras cheias de significado. Eu queria ver, na prática, como as atitudes tornam-se o que são e a vida torna-se o que é. Trata-se de escolhas, sempre. E eu escolhi deixar morrer, sem saber de fato o que essa morte representa. É o que eu quero. Não quero mais a nossa vida e tudo o que tínhamos. Eu estou deixando você ir e levar com você todo o peso que eu carreguei.

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As pessoas têm padrões de censura tão duros. Ele costumava achar que suas avaliações sobre si próprio adotavam comportamento irascível, mas percebia que havia aqueles sobre quem pesava muito mais a carga do erro, da condenação, das regras. Pessoas que limitavam a própria vida, como se não fossem capazes de experimentar certos sabores e dissabores.

Pensava nisso com extrema dedicação e quando voltou a si estava num banheiro químico, com o pau pra fora, fazendo xixi e prendendo a respiração para não aspirar a podridão daquele espaço. Através da tela vazada de material plástico resistente podia perceber o desenho dos Arcos da Lapa, e por um instante foi como se ele fosse feliz. Até quem não gostava da Lapa era capaz de de confirmar que havia ali uma energia diferente. Não exatamente boa, mas diferente.

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Luz, cidade. Lucidez. Por mais momentos como esse em que a vida se manifesta plena. Essa é a minha reafirmação como homem e como ser humano livre. Mas por que eu preciso estar constantemente me reafirmando e reafirmando valores e coisas nas quais acredito? Por que eu preciso me convencer de que as pessoas não tem razão quando tentam cercear a minha liberdade, a liberdade do meu país, da minha terra íntima, ou quando duvidam da minha bondade, da minha maldade, da minha crueza e da natureza inominável do meu espírito? Essas perguntas todas, elas me soam cada vez mais patéticas, Deus. Por Deus, a quem mais eu posso suplicar?

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Cara, vou ficar me preocupando com o que o outro vai ser? O que o outro vai ter? Que seja feliz. Ponto. Desejo para o outro o que eu desejo pra mim. Só quero o meu bem, portanto… Não vou além desse ponto em que tudo se converteu exatamente no que deveria ser, e a minha consciência vive tranquila. De vez em quando, quando me chegam noticias do outro, é que o outro me volta a ser ocupação. Logo, penso e resolvo. Não me sinto egoísta. Às vezes você simplesmente decide como lhe parece mais natural, mais intrínseco ao que você é e quer ser, e então lança no universo e ele devolve algo. Se você der sorte, esse algo é extremamente bom, é justo, se você é justo, e você então constrói com isso algo ao qual se apega. Às vezes simplesmente dá certo.

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Alto da Boa Vista me pareceu um bom nome para anunciar uma nova perspectiva. Era por isso, também, que eu estava lá.

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