Quarenta e quatro

“Um vaporeto não vai limpar a minha vida. A vida é curta. Curta”

Só posso escrever, mas não consigo mais. Me sinto triste, sinto que o que escrevo só provoca amargura e tédio. É um texto doente de um homem doente. Jorro.

Eu não confio nas palavras. Elas me fazem parecer rude, mesquinho, dramático, amedrontado, cínico, prepotente e nem sempre tudo isso forma o que está sob a minha pele. Elas denunciam minhas fragilidades e incompetências, mentiras e verdades. Fora de mim pode parecer fácil descrever as coisas e as pessoas (embora nunca seja realmente), mas dentro… É dentro que mora o pior. Nada do que pode ser visto no mundo exterior é tao pavoroso quanto as coisas que carregamos dentro do invólucro humano. A palavra não é mais um meio confiável de expressão, é só um delírio que ninguém pode compreender. Como a razão dos hospícios. Não dizem que eles só existem para que saibamos a diferença entre nós e eles? Entre a nossa loucura e a deles?

Há algo que traspassa as palavras, que rompe com a desilusão da escrita como libertação (ou como condenação). As entrelinhas estão esmagadas pela razão, pela estética, pela preguiça, pelo conceito, pela ignorância. Se eu tivesse asas e não mãos, eu seria definitivamente mais livre? Se eu tivesse o peso da idade eu seria mais ou menos feliz com o reconhecimento? Que tipo de reconhecimento pode vir de gente vil e dona de uma sabedoria enfadonha? A minha defeituosa compreensão do tempo, o meu julgamento torto das coisas. Eu falho ao transferir a minha subjetividade para a matéria. Cada uma das inofensivas ondas na lagoa me diz mais do que qualquer um poderia. Porque talvez fosse o próprio Deus usando sua criação para falar comigo.

*

Eu tenho medo de que o meu medo me vença. De que eu tenha que me subverter, me anular, me reescrever, depois de tanto empenho e angústia em tudo que empreendi aqui. Que a vontade não seja a minha. Que eu esteja decididamente errado e o erro tenha me condenado. Eu não teria palavras para me reescrever. Eu tenho medo do que eu possa ler quando tiver me reescrito. Mas talvez eu nem tenha essa oportunidade. Talvez eu simplesmente definhe.

*

“Me empresta o colírio?”. Ensaiava o bom dia mais equilibrado que poderia desejar ao cruzar a porta cheia de olhos vorazes e ouvidos sedentos por uma fofoca, por uma desgraça. A energia das pessoas é capaz de acabar com as estruturas de equilíbrio de um espaço. E o equilíbrio era a qualidade mais invejável, só perdia para a capacidade de ter fé.

Ele havia mergulhado novamente na apatia, na mediocridade que o cercava e que agora era parte dele, também.

*

Eu esperei por um SMS, por uma ligação, um emoticon no Skype, qualquer sinal de que você não era um completo idiota traumatizado por experiências fracassadas de amor. Que qualidade mais detestável que alguém deixe de viver, que ganhe uma perspectiva negativa, desconfiada de qualquer pessoa que se aproxime. As pessoas não deviam embarreirar o amor. Madre Teresa dizia que se você julgar as pessoas, jamais vai ter tempo para amá-las. Eu ainda quero amá-las. E eu não tenho tempo para esperar, eu não quero ir devagar. Eu me jogo. À beira do precipício me surgem asas. Eu não tenho medo. Isso tem a ver com a ideia de liberdade, de vontade, de disposição. Não descuido, não duvido, não tenho rédeas. Eu me entrego, cara, e isso é tudo que você precisa saber a meu respeito. Não tem segredo, não tem mistério, como Marisa. Não tem bons modos, bom gosto, bom senso, como Adriana. As mulheres são tao menos covardes que os homens quando se trata de amor.

*

Especial? Hahaha. Especial por que, senhor prepotência? É você quem decide? Não havia nada de especial em mim. Nem nele, ou nela ou em qualquer outro. Éramos só nós, jogados aqui, alguns bem, outros nem tanto. Partidos e inteiros, sadios e doentes, ricos e pobres, jovens e velhos, pais e filhos, amigos, os vícios, o bom e o mau, estava tudo ali, não havia nada de especial, era só representação.

*

Me escondi em algum canto do meu universo, abracei-o, porque eu só queria tê-lo por perto. Não queria corrompê-lo, só queria cuidá-lo. “Cansei de estar entre os outros, cansei de existir neste mundo”, ele dizia, e eu só queria cuidá-lo como mãe e amante, como pai e amante, como amante e amigo. Eu era um rei. “Eu era o meu próprio rei, o rei do meu mundo e isso de nada adiantava”. Você é o rei de alguém, e ainda que não seja. Não valemos nada. A morte leva tudo embora. Só o que você criou é capaz de durar. Então eu ouvia: Não tenha medo da polêmica, dos seus fracassos tão sinceros, das suas piores sensações e da pior imagem que você possa representar para alguém. Essa é a sua integridade. “É a minha integridade”. A perfeição é uma mentira, você sabe, “eu sei”, o mundo é hipócrita, você sabe, “eu sei”, nós estamos perdidos, perdidos e repletos de uma esperança imortal. É essa esperança que mata.

A luz entrava calma pela janela de vidro enquanto eu, semiperplexo, me olhava no espelho. Peri Pane falava sobre a morte dos ácaros em alguma radiola na vizinhança e era a trilha sonora perfeita para a manhã de segunda. A água gelada nas bochechas, a menta na língua. Ele entrou no banho preguiçoso, mole. Tudo de novo, mais uma semana, nem havia descansado o suficiente. Já nem estava mais insatisfeito com o trabalho. Não estava mais nada.

Teve de aturar o mau humor do chefe, que agora iria demonstrar suas insatisfações em cada oportunidade que tivesse. A colega estava indo embora. Não era culpa dela se havia outro escritório interessado em lhe pagar decentemente, lhe garantir um plano de saúde, um tíquete alimentação que desse para comprar algo mais que um salgado e um refresco.

*

Morro em uma quinta feira de sol laranja, uma luz que fazia tudo se tornar especificamente lindo em cada detalhe.

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