Quarenta e cinco

Peri Pane me soprava palavras tão reconfortantes ao ouvido que era inevitável não me apaixonar pela figura que haviam criado, pelo melódico e substancial conjunto de frases feitas reverberando num canto intocado da minha alma. Me sentia tonta, literalmente e figuradamente, inebriada pelo desejo de liberdade e pelo sol de raios estimulantes daquela manhã quente de abril. Ontem era possível ler o desespero no meu corpo, mas hoje quem se aventurar a encarar meus olhos fundos talvez perceba uma centelha de esperança entre a aparência cansada do meu rosto e a avidez dos meus lábios ansiosos.

*

Estava num invólucro, mergulhado num casulo. Não havia desistido, afinal, só ia dormir à noite pela fé. Mas havia abdicado do “quero viver” pelo “estou vivendo”. Era um exercício de liberdade (porque até a liberdade precisa ser praticada). Um movimento reticente, mas constante, porque era preciso também discutir e avaliar a liberdade, como os problemas, as soluções, a arte, o humano e o divino, as possibilidades de expansão diante de um mundo inteiro que te sujeita a compressão. E era, por fim, um esforço de agir, porque como Marina gostava de dizer, “não existe pensamento, ou talento, existe ação”. Mas tenho medo de que seja tarde demais para fazer a coisa certa, agora. Se eu pudesse pelo menos esquecer dos sonhos que não consigo lembrar…

*

Faltam homens nesta cidade. Homens. Por aqui há apenas dublês de homem, desses que não sabem ou fingem não saber que a principal condição para ser homem é ter hombridade. Talvez faltem homens no mundo. Não falo apenas como uma bichinha mal comida, mas como ser humano. Não reclamo da falta de homens viris – falo inclusive das passivas até a morte (carinhosamente chamadas de Pam), dos versáteis, das mulheres, dos transgêneros. A falta de hombridade é uma postura que independe das posições e classificações sexuais, das crenças e das classes. É uma chaga universal. Certamente é um erro recorrer ao arquétipo masculino para falar de hombridade, mas a etimologia da palavra está aí para me absolver.

Dia desses alguém urinou no ônibus e deixou o corredor próximo aos últimos assentos com uma catinga inarrável. A podridão e a mesquinhez do ser humano estava também ali, explícita diante do perfeito funcionamento das minhas células olfativas. Meus outros sentidos não saíam ilesos, igualmente. Havia horror para os olhos, para os ouvidos, para o paladar e para a minha pele espessa, inclusive. Estamos todos cercados pelo horror da frouxidão e da falta de coragem humana, da completa indisposição de caráter, da pequenez intelectual e emocional das pessoas. É triste. É desolador para quem deixa de fazer sexo ou para quem se sujeita ao sexo ruim, como é desolador para quem tem de tolerar odores desagradáveis, marcas de violência, ignorância e medo.

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Somos podres. Basta ir ao banheiro e passar o fio dental nos dentes e lá estará um breve atestado da nossa podridão. O cheiro fétido nas mãos. Não há razão para soberba. Para orgulho, para mágoa, para desperdício de tempo. Vemos atestados de morte todos os dias, sofremos mais que o inevitável, e, ainda assim, não nos damos conta da nossa temporariedade. Do nosso estado de putrefação permanente. Um dia após o outro, cada dia menos jovens, menos sedutores. O que vai sobrar?

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Trinta minutos antes estava imerso na adoração a Deus, entoando um hino poderosíssimo que o fazia levantar o tom habitual e as mãos, sem medo de qualquer julgamento. Agora estava ali, tentando equilibrar um copo sobre as nádegas, com um rebolado que provocava sentimentos controversos, e tentando entender por que isso soava tão discrepante para as pessoas ao redor, por que aquilo não poderia ser apenas o que era: dois movimentos legítimos de alguém que está vivo e que tem anseios tão abrangentes.

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Desde que se entendia como gente, Laura sempre quis ser jornalista. Ainda criança, tinha uma disciplina exemplar. Todas as noites, de segunda a sábado, se punha em frente da TV no quarto para assistir ao Jornal Nacional. Calava as vozes de William Bonner e Fátima Bernardes, ou de quem quer que estivesse na bancada, para ela mesma apresentar, com a ajuda do closed caption, “as noticias mais importantes do Brasil e do mundo”. Era realmente adorável a seriedade com que ela se dedicava àquilo. Perdeu depois o encantamento pela TV e dedicou atenção integral às revistas adolescentes. Passou mais tarde pela adoração às revistas femininas e o genuíno interesse pelas semanais. Estudou, formou-se,  criou um blog de moda e decoração e então chegou ao maior jornal da cidade.

E depois tornou-se uma filha da puta que privilegia produtos de determinada assessoria de imprensa, ou de outros facilitadores, em troca de almoços grátis na cadeia de restaurantes da poderosa matriarca herdeira de um trono qualquer no reino dos filhos da puta. Todo mundo tem um preço, oras. Pode ser uma quentinha ou uma cumbuca de sopa de cogumelos e pepino do mar. E jornais, diferente de canções, só servem mesmo para tarefas como embrulhar peixes e forrar o chão durante a pintura das paredes, então, que mal havia?

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Não há imaginação que consiga ultrapassar a maldição daquelas quatro paredes. Choveu quando chegava em casa, e se eu caísse de cara no chão certamente ficaria ali sentindo os pingos grossos nas minhas costas, porque talvez eles me acalmassem e me fizessem esquecer por alguns instantes que a liberdade é a maior e a mais cruel mentira que o homem foi capaz de inventar.

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