Quarenta e seis

corpos sentados, corpos em pé
leitores, cansados
um túnel, o cristo de braços abertos, iluminado
botafogo põe fogo em corações perdidos, ansiosos por uma redenção que não chega
talvez não haja tempo para amar, se o seu ponto estiver próximo
talvez não haja ponto para descer, se o seu coração estiver em trânsito
talvez tudo acabe no próximo semáforo, com balas ou bueiros
talvez tudo comece na próxima viagem, passageiro
pague seu bilhete, escolha seu assento, se tiver chance
reze para não ter surpresas com odores desagradáveis
reze para que você não esqueça do sinal de parada
se lembrar, torça para que ele pare
se parar, que dê tempo para descer
quando descer, que haja música
e ao chegar, bons afetos
tudo afeta

*

Meu espírito se dividia entre a Baía de Guanabara e os rostos na rua, no ônibus, comigo. Uma jovem sentada acaricia a barriga do homem em pé. Um homem desata o nó nos fios do fone de ouvido, coloca-os, penteia os cabelos com as mãos diante do reflexo na tela de cristal líquido do aparelho celular. Só olho. Volto os olhos para a paisagem. A beleza do Rio de Janeiro é incapturável em sua plenitude até pela mais poderosa câmera fotográfica.

*

Ele tinha uma razão para vestir a roupa e ir embora. Sexo e relacionamento são coisas distintas. Havia uma exigência de como as coisas deveriam ser, ou apenas um sentimento de que não era daquele modo. Não era por medo, ou por trauma. Não era? Possivelmente era apenas por falta de identificação. Pela falta de empatia. Pela ausência de paixão. Era bom sexo e nada.

Perguntei ao taxista se ele já havia sido chupado enquanto dirigia. Não, ele se limitou a responder. Não tem vontade? Se rolar um agrado até rola. Pagar? Não… não tenho disposição para isso. Você recebe muitas propostas como essa? Até que não. De vez em quando aparece alguém. Alguém nebuloso. Mais comum ouvir de homem ou de mulher? Ah, mais de homem. O homem é mais promíscuo. O homem gay, duas vezes mais promíscuo. Mas de mulher acontece também. Vou ficar ali, na estação, por favor. Desci.

“It’s not exactly a problem, just makes me a little unconfortable”.

*

Eu sabia que em algum momento eu precisaria encontrar a sorte. Dar de cara com ela e obrigá-la a olhar para mim, a me enxergar, ver através da capa.

*

Se eu pudesse pelo menos canalizar essa frustração e torná-la algo produtivo… Se eu soubesse o que fazer com ela ou imaginar uma função para ela. Se eu soubesse o que fazer com o ar que me escapa, com o peito apertado que me dói, talvez eu pudesse transformá-la num instrumento de felicidade. Talvez eu pudesse dar a volta por cima, um giro inesperado, sobrevoar e olhar a merda toda de longe. “Eu não faco mais parte dela, ela não é minha”, diria, com o peito estufado de orgulho. Seria uma vitória linda. Mas quem quer se sente no trono e faça os julgamentos deve me achar merecedor do peso da cruz da angústia, porque ela me é tão íntima quanto poderia. E alguém poderia dizer que essas são palavras muito duras e que eu deveria agradecer e então eu diria “vá se fuder, seu viadinho de merda”. E “vá agradecer a porra da sua vida medíocre para quem você achar que deve escutar suas palavras vazias em tom de comiseração”. Olhar para o lado bom não torna melhor o lado ruim. Encarar o lado ruim tampouco piora o lado bom. Às vezes você simplesmente não quer agradecer, você quer que as coisas melhorem e melhorem logo, para que você possa olhar para o céu e realmente sinta que tem fôlego e vontade de entoar um louvor. Eu prefiro a felicidade. Eu não gosto da tristeza e me apavora o tom desesperado das palavras e dos olhares carregados de sentimentos pesados e negativos, mas eu não posso simplesmente fazer uma escolha. Eu não posso simplesmente deixar de ver o que eu vejo, de reagir como reajo, eu não posso, somente por minha vontade, ter o que eu não tenho e me libertar do que me agride.

Há fases, ciclos de tempo indeterminado, em que você não sabe se o problema está em você, no outro, no sistema, no Deus, na vida como experiência inconstante. Você apenas deseja que tudo acabe, que tudo mude, que tudo se transforme em algo menos doloroso, menos apavorante, menos miserável. Embora a dor seja, também, força, e motor, você abriria mão da força pela experiência pacífica, pelo caminho em que o ódio e a animosidade não lhe consomem, em que a solidão seja realmente uma amiga, já que a convivência destrói. Mas as fases, como as pessoas, passam. Dão lugar a novas alegrias e tristezas, glórias e tragédias. A vida não melhora. Nós é que talvez nos tornamos mais resilientes, se já não nos despedaçamos de vez. E sabe, Clarice, vejo que você sempre teve razão, sobre tudo. Você, mais do que qualquer um, entenderia. Mas devo mesmo acreditar que o sonho nunca vence? (silêncio de dor) É que ainda tenho tendência a crer nessa promessa de leveza e regozijo que a brisa me sopra, na calma e na constância que a água me dá, de graça.

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