Quarenta e sete

Eu estava abismado com a oposição que se criava em minha cabeça. Uma oposição a mim mesmo. Como se a visão das pessoas a meu respeito se confundisse com a minha, tonando-se uma só. Mas o que as pessoas não sabiam eram os meus anseios profundos e as minhas decepções com aqueles que se aproveitam do meu amor. Por amar demais eu me corrompo e por amar demais me traem, porque há pessoas que não sabem retribuir. Dão desgosto. Abusam do amor. Dilaceram o amor. Convertem o amor em atestado de mediocridade. Te chamam de burro, de bobo, como se fosse a mesma coisa, um burro e um bobo, e te violentam. E eu, ainda tentando me recuperar do corte sou de novo atingido. “Burro”. Vou eu dizer que não sou burro? Introjeto aquilo em mim. Sou mesmo burro. Sou patético. E abro de novo a ferida que me abriram. E passo a agir como quem não é ferido. Quero renascer. Mas abro mão das asas e me torno pesado. Não voo, me arrasto. Busco o ódio, mas o ódio não é amigo. Busco um equilíbrio, mas ele me foge.

O que sinto, então, é indizível. Não posso narrar, não posso tornar público porque é como tirar a minha roupa na frente dos meus detratores. Mas eu transpareço. E então me julgam. E eu brado: julguem-me! Me faz mais forte, porque eu sobrevivo. Atire as suas pedras, enderece a mim os adjetivos que andou buscando no lamaçal dos arquivos da sua artilharia. Alimente a minha síndrome de Cristo. A sua ofensa me chega tão deliciosa que é como se seu ódio disfarçado de indiferença me tornasse mais destemido. Olha para mim e vê o seu reflexo. Me culpe. Deposite em mim a responsabilidade pelo colapso total da beleza. Não há mais beleza. Eu matei a beleza. Eu é que me culpo? É como estar nu. Há beleza na minha nudez? Há beleza na minha verborragia? É a morte. Não há beleza na morte.

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Eu precisava de um recanto. Talvez fosse hora de me despedir.

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A gente precisa ver a vida por um fio para acreditar. Precisa descer até o inferno para acreditar. Precisa se apaixonar para acreditar. A gente não sabe o que é ter fé. A gente confunde fé com emoção, mas a fé é sobrenatural.

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Eu estava aqui com Clarice pensando no quanto nos tornamos pessoas ruins. Vamos nos tornando cada vez mais amargos. Versões pioradas de nós mesmos. E só nos damos conta disso numa terça-feira à noite, dentro de um táxi qualquer.

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Se eu pudesse dar uma só dica sobre o futuro seria esta: preocupe-se em realizar um trabalho pelo qual seja apaixonado. Descubra uma vocação, um talento, aperfeiçoe-o. Poucas coisas vão te fazer tão infeliz quanto dedicar-se a algo pelo qual não se tem o menor tesão. É como se você estivesse morto, vivo, morto, vivo. Morto.

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A vida me ensinou atitudes práticas muito valiosas. Ao entrar em um ônibus lotado, por exemplo, por mais cheio que ele esteja, a melhor estratégia é sempre dirigir-se ao fundo do automóvel. As pessoas que vão descer logo procuram estar mais próximas da porta de saída, o que aumenta as chances de conseguir um assento. Fazendo isso você também evita ser pisoteado um sem número de vezes, embora tenha que tolerar olhares de reprovação enquanto tenta atravessar o mar de gente e atitudes mesquinhas dos que querem impedir o sucesso de sua empreitada, forçando o corpo para trás ou simplesmente deixando de abrir caminho. Compreenda-os, mas não se intimide. Aos que reclamarem, apenas lamente, mas você não é o responsável pelo caos do sistema público de transporte. Se for ativista, aproveite para alertar que as pessoas deveriam pensar exatamente nesse tipo de situação ao escolher seus governantes. Atrapalhar o fluxo da roleta também é pouco eficaz. É muito provável que o motorista não deixe de parar para recolher mais passageiros (o verbo recolher não foi escolhido à toa). Fixar ponto em frente ao cobrador, portanto, só torna a viagem mais lenta e dolorosa do que o inevitável.

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O silêncio tem sido meu melhor companheiro. Ele sabe exatamente o que dizer, me pede exatamente o que eu posso dar. Tem se mostrado um bom amigo.

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Até o meu silêncio é oração.

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Ela me disse que um dos clientes dela era um paciente com câncer e que procurava ser mais gentil que o de costume com ele. Usava até algumas exclamações e quando se encontravam fazia questão de chupá-lo, mesmo achando que o pau dele tinha gosto de brócolis. Deus sabe como ela odeia brócolis, mas tinha um coração bom, a puta.

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