Quarenta e nove

I’m not hard as a rock, I’m just not easy to break
But don’t take it as an open invitation to try

Gosto de observar os homens em seus carros, ao volante. Olho com atenção o contorno das coxas sobre o banco e a mão apoiada no câmbio. Sobretudo quando estão sozinhos. Uma parte porque me excita, uma vez que me traz à memória uma fase da minha juventude em que foram muitas as vezes que me aventurei em automóveis minúsculos parados em estacionamentos de todos os tamanhos. Outra parte porque me excita muito dirigir e queria fazê-lo com frequência maior.

Não sendo proprietário de automóvel algum, me resta observá-los e levantar hipóteses sobre mobilidade urbana, desigualdades sociais, desigualdades sexuais, sexo, beleza. Tudo se torna motivo para pensar, e, quando não me condena, pensar me mantém em exercício. Sabe Deus o que pensar tem feito por mim. Pensava muito quando dirigia. Dirigir talvez seja um dos hábitos mais sexies dos homens. Será que eu era mais sexy quando dirigia? Sinto falta de ser sexy.

Uma vez, sentado no ônibus, vi o motorista de um carro batendo punheta na altura do elevado do Joá, onde boa parte dos carros são de luxo, com uma camiseta cobrindo a ação da mão. Outra, na W3 Norte, vi uma mulher loira pagando boquete para o motorista em plena luz do dia, enquanto estavam parados por um instante em um semáforo.

*

Nunca tive sotaque. Vivendo em uma cidade estranha hoje dizem que tenho sotaque, mas é conhecido, ou pelo menos quero crer que seja conhecido, o fato de que brasiliense não tem sotaque. Talvez pela mistura de tantos deles (afinal, há gente de todo canto no espaço abstratoconcreto de Brasilia) acabamos sem essa peculiaridade fonética muito comum em uma nação multicultural como a nossa, vivendo num espaço geográfico tão grande quanto o território brasileiro.

É, não tenho sotaque. Nem r, nem x, nem t, nenhuma consoante ganha status diferente em Brasília. Nossas gírias e dialetos também não são grande coisa. Talvez até sejam, mas não são fortes o suficiente. Não temos fuá, não temos vrá, quengaral, uai, tchê, não temos pica das galáxias. Lembro com certo rubor de um lapso de tempo na adolescência em que forjei um sotaque que ninguém sabia ao certo de onde vinha. Nem eu. Me perguntavam por que eu falava diferente e eu dizia que não falava, e se falava, não era proposital, era resultado de uma diferença interior. Eu buscava uma identidade, pobre, e não me dava conta.

Ninguém mesmo dava conta de mim, com ou sem sotaque, então, emudeci. Fiquei calado por três milênios, sem sinal de que havia um grunhido sequer preso em minha garganta. E quando voltei a abrir a boca conversava apenas com utensílios de cozinha, plantas, insetos e animais. Cães e formigas são bons ouvintes, de maneira geral (apesar de que formigas trabalham demais e podem não ter tempo para papear. Se entediam facilmente). Era feliz. Passei a dar bom dia para os cômodos da casa, e, de tanto insistir, deixaram de me ignorar. Hoje, paredes disputam minha atenção e me recebem com alegria quando volto para casa. Sim, além de escutar falam muito bem. São boas oradoras. Experimente ficar mudo diante delas e elas talvez lhe digam coisas surpreendentes.

Com as pessoas, falo apenas o necessário. As pessoas não têm tempo para ouvir nada, trabalham demais, assistem TV demais, mantêm um relacionamento contínuo, insaciável e perturbador com seus aparelhos celulares. Não se pode nem mesmo prendê-las em um recipiente de plástico com um pouco de terra e algumas folhas, a tampa com pequenos furinhos para que a respiração escapasse, como eu fazia com as delicadas formigas pelas quais me apegava. Mas, ainda que pudesse, não o faria. Como não faço mais, aliás, com as formigas. Bicho precisa de liberdade. Bicho gente também. E mesmo quando se cativa ou se é cativado por alguém (aquele esquecido hábito de criar laços, como disse certa vez uma raposa para uma criança sagaz), é preciso que o deixemos ir. Como fazem as mães e os pais quando saímos de casa (não sem algum sofrimento). E então, agora, eu poderia falar bastante da solidão, mas, para que? As palavras da solidão são íntimas demais, idiossincráticas demais para serem escancaradas num grito.

*

No dia seguinte deu tudo errado, desde o início. Acordou em meio a um dilúvio, uma chuva com vocação inegavelmente apocalíptica, o despertador não falhou (“um dia que não começa com o despertador é um dia feliz”), tocou insistentemente, até. Mesmo assim, acordou atrasado e quando chegou ao ponto de ônibus esperou mais de meia hora pela da condução, A porra da condução. Ou isso ou os minutos se arrastaram de forma cruelmente vagarosa. Quando, por fim, passou, estava tão abarrotada de gente quanto um trem da Central do Brasil. Estava com frio, havia esquecido o agasalho e o ônibus tinha ar-condicionado. Quando o veículo esvaziou, por pouco não se viu em estado de hipotermia, tamanha sua sensibilidade ao frio. Caralho. Não fosse o dragãozinho cantante em dias como o de hoje, a dar-lhe algum conforto, não sei como seria. Nem ele sabe.

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Você sabia que a palavra mundo vem de limpo? Não. É sério isso? É. Li uma vez: mundo é uma palavra latina que significa limpo.

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O Rio de Janeiro não combina com rotina e talvez, esmagado por uma rotina de embaraço e de tédio, seja esta a razão de sua implicância com a cidade nas últimas semanas. Com exceção da chuva de ontem, que deixou o tempo favoravelmente inclinado a uma meticulosa audição do repertório do Little Dragon, o Rio tem lhe parecido inadequado, despropositado, arranjado para servir poucos. Era um sentimento inefável, acima de tudo.

Mas ele não podia reclamar da vida. Até porque passou tanto tempo fazendo aquilo que talvez sua cota tivesse acabado. Talvez ele simplesmente não tenha esse direito mais. Mas o jovem de peito arfante estava lá, encostado no anúncio na estrutura do ponto de ônibus onde se lia em letras garrafais Leia o livro Universo em Desencanto. Curiosamente, a próxima música a tocar em seu aparelho telefônico com sistema de reprodução de arquivos em MP3 seria Bom Senso, de Tim Maia, e ele ficaria imaginando se estaria ali algum sinal ao qual devesse prestar atenção. Era quando pensava em homens e mulheres incríveis, em suas histórias repletas de talentos e feitos extraordinários e vidas destruídas. De Tim Maia a Frida Kahlo e Clarice Lispector. Mortos. E pensava nos jovens de sua idade, toda a realeza pop na música, na literatura, na TV, no design, que um dia, cedo ou tarde estariam. Mortos.

Ter uma vida verdadeiramente plena era sobretudo estar pronto para a morte, e, ainda mais, para a mais assustadora das mortes, a morte prematura.

*

Mas havia aqueles que estavam ansiosos pela guerra, pelas trevas, pelo desespero. Depois da catarse, a confirmação que eu tive, meu voto de confiança, veio até mim com o “vai com Deus” da responsável por receber o material colhido rigorosamente no meu banheiro durante três dias. “Vai com Deus”. Ela me deu uma bronca por chegar atrasado, embora tivesse ligado para checar o horário. Me mostrou a informação no papel que eu não li. Quem lê esses papeis? Por que eu não podia confiar na voz doce que dizia que eu não teria problemas se chegasse até às nove? Fui com Deus me fazendo companhia até o momento em que eu talvez tenha feito algo de errado e foi como se Ele não estivesse mais ao meu lado. Ninguém segurava a minha mão.

*

Você sai do banho frio com a testa já pingando suor. Calor de fevereiro no Rio de Janeiro. Calor de imensidão no buraco da camada de ozônio. Seu cérebro cozinha a vapor. Seu corpo amolece, suas roupas encharcam. É difícil dormir, acordar, sair de casa. Até a água do mar deve estar em ebulição. Pessoas reclamam do ar-condicionado, da falta de ar-condicionado, da falta de ar. Só reclamo do calor. Países tropicais são ótimos para passar férias, mas tentar viver uma vida nas ruas, maquinal, de domingo a domingo, com essa massa de ar que te dá a sensação de grelhar em um George Foreman… é difícil.

(delírio)

(O calor) É tão forte que você não consegue pensar. Mas a imagem é tão inspiradora… os pássaros não pareciam voar, mas flutuar pelo céu. Nos fins de semana você fica lombrando na praia com as meninas mostrando a embalagem de absorvente para as amigas e cada palavra que sai da boca delas soa como ser mastigado e engolido por elas. Os aviões voando sobre a água exibem propagandas, você está com o tesão nas alturas, sai da água com o pau duro, o mar completamente esverdeado, calmo. Delírio…

*

A intimidade é capaz de matar até o sentimento mais bonito. Estar tão próximo de alguém revela o melhor e o pior dele e é geralmente o que ele tem de pior, e o que isso desperta de pior em você, que vai minar tudo e acabar com qualquer resquício de cuidado para com o outro. No fim, sobra a mágoa, a culpa, o sentimento de que um pouco mais de sabedoria teria nos livrado de uma tragédia. Porque é uma tragédia que qualquer bom sentimento, num universo onde eles ficam cada vez mais escassos, se transforme em algo que provoque raiva e dor.

*

Você, macho da espécie: Experimente sair de casa transvestindo sua mais perfeita figura feminina, e veja, sinta, perceba o que é ser mulher em um domingo de Carnaval, seu corpo absolutamente, despudoradamente disposto à performance. Ser mulher é uma conquista. Tente, qualquer um, apenas pelo efeito de experimentar. Perdão, qualquer um, não. Ser mulher não é para qualquer um. Naquele dia eu era a mulher perfeita, porque, sem qualquer esforço, reunia o melhor do homem e da mulher. Era um híbrido cabal.

*

Sonhei com você a noite inteira. Vontade de não acordar nunca, de, a cada detalhe revelado me apaixonar mais por você. De manhã, o que dói mais é não lembrar do seu rosto. Mas recordo que era possível sentir o que você sentia por mim, que o seu desejo era quase palpável e o seu cuidado era uma benção.

*

Em entrevista à Marisa Raja Gabaglia:

-Você tem paz, Clarice?
– Nem pai nem mãe.
– Eu disse “paz”.
– Que estranho, pensei que tivesse dito “pais”. Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei – mamãe – e então não ouvi mais nada. Paz? Quem é que tem?

Vejo uma mãe com seu filho. Penso na ideia de ser pai. Na responsabilidade e na decência que significa criar um ser humano. E na vontade que me ocorre de fazer isso sozinho, como acontece com Aram Finklestein em Novidade no Amor. Talvez, como Clarice, eu tenha nascido exatamente com vocação para as três experiências para as quais nascemos e pelas quais damos a vida: amar, escrever, ser paimãe (à parte parir e amamentar, criar filhos é uma coisa só para ambos quando se faz com a honestidade inerente). Estive pensando em você, Clarice. E em como sinto sua falta. Talvez você sinta a minha também.

*

Os homens conseguem ser tão entediantes quanto é possível ser entediante. E estão cada vez mais amedrontados e pequenos. Num desses aplicativos criados para sujeitos à margem brinquei com um deles dizendo Acho que você ainda não sabe, mas sou sua alma gêmea. Ele respondeu com um exclamativo Medo!. Quando tentei explicar que era apenas um gracejo, uma forma descontraída de dizer que havia me interessado e que pedia desculpas caso tivesse lhe assustado, que surpresa: Lamentamos, sua mensagem não pôde ser entregue porque o destinatário bloqueou você. Uma espécie diferente de medo, foi o que senti.

*
Os homens do Centro são mais divertidos que os da Zona Sul.

*

“Borocochô”, foi o que eu disse. “Chapadão mesmo”, ele respondeu. “Caralho três vezes”, disse uma moça na mesa ao lado.

*

(Dentro do crânio, ele estava ali, ouvindo com atenção a sinfonia da cidade em escombros, fazendo coro às ruínas de si mesmo, com seu jornal na mão, pensando em onde gostaria de estar, o que gostaria de fazer, tudo impiedosamente bem distante dele, e por isso ele morria um pouco. Mudar hábitos não deveria ser tão difícil. Mas é, e a única maneira de lidar com isso é continuar tentando. Ele esperava que em algum momento as coisas mudassem para melhor, mas estava cansado de buscar nos outros uma redenção que ninguém, jamais, poderia trazer.)

Tantas e tantas vezes eu tentei escapar disso, mas, agora, escapar de que? Escapar do que me leva a tornar as coisas absurdamente insustentáveis (a maneira mais próxima e também a mais dolorosa de provocar mudança, e é por isso que elas doem como dói a maior dor), do ponto de vista de alguém que machuca e machuca a si mesmo. Melhorar não tem melhorado, piorar também não. Fazer o que, além de sangrar nestas páginas? Que fazer, além de lamentar e lamentar e lamentar, e sair, e buscar outros caminhos, se no fim é tudo solidão, e é tudo dor, tudo é morte, tudo tem um pouco de cada gosto e cada gosto um pouco de tudo? Morrer já não faz diferença, viver já não faz diferença, se arrepender ou não, amar ou não, ser amado ou não, encontrar ou não encontrar. Talvez você seja feliz, talvez você só não seja feliz hoje. Talvez a felicidade não seja nada além da geladeira cheia, ou nada além de uma fantasia, uma miragem que impede que o homem que anda no deserto deixe de viver a caminhada sofrida sob o calor infernal, pare e seja consumido pelo pó.

*

Fui à igreja, mas não estava bem. Em verdade estava tão mal que cheguei muito atrasado ao culto e saí antes mesmo que terminasse. Esperei que todos fechassem os olhos e elevassem o espírito em oração e caminhei com velocidade em direção à saída. Veio atrás de mim um homem, tentou chamar minha atenção por três vezes e só atendi na última porque por pouco ele não se pôs na minha frente. Tinha um rosto redondo, o homem, e parecia muito triste com a minha partida. Já vai?, perguntou, depois de me estender a mão. Sou. Quer dizer, vou, eu disse. Seus olhos me convidavam tão comoventemente a ficar que por pouco eu não permaneci imóvel para sempre, mas creio que ele entendeu, eu precisava ir. Desculpe, senhor do rosto redondo. Desculpe, Deus. Eu não queria ter feito aquilo. Eu queria, naquele momento eu queria, mas não agora. Apenas acho que nos entendemos melhor no nosso silêncio.

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