Cinquenta

As conversas em torno de mim não me diziam respeito, as grandes questões eram minhas, minhas grandes questões, a face de Deus que eu queria enxergar, a face de um Deus de misericórdia e de amor, eu próprio como uma descoberta, como um achado precioso. “Eu tenho medo”, foi o que eu disse, mas desconhecendo a dimensão do meu próprio medo. Mas o medo que me faz ter medo é o medo que me salva e o medo que me condena. É legítimo, portanto, é um deus e um demônio. Mas se eu pudesse me livrar do medo como seria a minha face sem o medo? Eu seria eu sem o medo? Eu não conheço o que eu seria sem o medo porque o medo sempre me fez companhia. Só me reconheço diante da existência do medo. É possível não ter medo? Não ter medo do erro? Porque o erro condena e a condenação é a pior condenação que se tem conhecimento. A condenação é o medo praticado. A condenação é a aniquilação pelo medo. É nada mais que o medo. Nem paz, nem amor, nem fuga, nem delícia, é o medo no estado bruto do medo. A condenação é o agora e o depois. E a salvação também provoca medo, porque o medo estará para onde quer que o olhar se volte. Porque o medo é intrínseco, o medo é indissociável. O medo está na atmosfera, na matéria e na antimatéria, no espectro, na não-matéria e no abstrato puro. Só é possível não ter medo quando se abraça o medo, quando se apega ao medo e se assume o medo como guia e como salvador do próprio medo. Só se vence o medo pela adoração ao medo. Mas ainda assim há medo. Apenas transforma-se o medo em temor, mas a essência do temor é o próprio medo. Uma só entidade. Eu tenho medo. Eu tento entender o medo, compreender o medo. O medo precisa de amor e eu amo o medo. Eu respeito o medo e transformo o medo num medo amigo, mas a face desconhecida do medo me perturba. Porque é onde não vai a minha consciência que o medo me assombra. É onde eu não alcanço o medo que o medo supera o meu domínio e me transtorna. O medo é indomável. É possível pensar que se vence o medo, mas o medo é invencível. O medo não tem rosto, mas está em todos os rostos. Até nos rostos que sorriem há medo, porque o medo disfarça-se de emoções na tentativa de escapar dos que tentam triunfar sobre o medo, para depois sobrelevar-se de vez. Todo mundo prova do medo uma vez e a primeira vez é também a única porque o medo é constante. Há os que dizem que não têm medo, mas o medo apenas os assiste e espera a hora de abrir a porta. O medo pode ser gentil. O medo é paciente. O medo tem vontade própria. O medo abomina os covardes porque os covardes são consumidos pela inércia. Ter medo é para quem tem colhões. O que seríamos sem o medo? Não se pode provar o medo. Não se pode ignorar o medo. O medo existe como coisa independente e transcendente. Não há melhor denominação para o medo do que coisa. O medo está na estrutura. Acabar com o medo é como ruir. De toda forma é condenação. Com a coisa do medo ou sem o medo, se fosse possível estar sem o medo, o destino é acabar. Morre-se em louvor ao medo ou renegando o medo e não se sabe quem leva a melhor. Não se sabe. O medo só sobrevive na ignorância e a ignorância é condição inescapável do ser humano. O medo é inesgotável. O medo transborda-se na própria definição.

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