Cinquenta e um

Up and down the hill
All around the carousel
A flowery smell
A dead end

A minha literatura (é uma pretensão enorme referir-me assim a essas palavras rabiscadas que se desgarram de mim de maneira tão pungente? Se é, lamento ferir a castidade dos conceitos de um alguém. Mas é tão minha a ponto que eu a defino) é Frida Kahlo transposta para seus registros visuais impossíveis de expressar em palavras sem perder parte da essência. Frida está lá, de modo que estou aqui, e suas projeções suspensas atadas a cordões umbilicais são reais apenas em sua cabeça.

*

Às vezes se é egoísta até sem saber por que. Até quando não se deve. Diante do moribundo, diante do que não lhe fere por um segundo sequer, ainda somos egoístas.

*

De alguma maneira e contra todos que conhecia ele achava que a paisagem carioca ficava especialmente bela em dias de chuva como aquela sexta-feira. Mesmo com o mal estar provocado pela dor nas costas e pelo enjoo sentia uma espécie de paz reconfortante. Talvez pela soma da paisagem com a chance de ter podido tomar um café da manhã decente depois de semanas. Continuou se sentindo mal. Foi ao banheiro diversas vezes. Em todas elas defecou. Ao observar a qualidade das fezes notou que o bolo fecal posto para fora tinha coloração amarelada e estava cercado por uma massa de água levemente avermelhada que indicava a presença de sangue. Constrangido por ter de se levantar tantas vezes para ir ao banheiro durante o expediente, pediu para sair mais cedo e se dirigiu até a emergência mais próxima de casa. Ficou surpreso por conseguir ser atendido assim que chegou. Protocolar, o médico pediu que relatasse os sintomas, o que fez prontamente (era a terceira vez desde que chegara e a cada nova solicitação se recordava de mais um incômodo). O doutor disse que iria hidratá-lo, medicá-lo e encaminhá-lo a um gastroenterologista para uma colonoscopia. Enquanto esperava a medicação seus olhos se encheram de lágrimas diversas vezes ao ver senhores e senhoras muito velhos, sentados em cadeiras de rodas, cujos acompanhantes eram quase tão velhos quanto, e ficou se perguntando onde estariam os filhos daqueles homens e mulheres, se eles os tinham. Uma mulher que segurava uma máscara de nebulização sobre o rosto de uma criança pareceu ler o que passava pela cabeça dele e dirigindo-se ao acompanhante de um senhor muito velho e debilitado perguntou se ele não tinha família por perto. O velho parecia estar em outro plano. Apoiava o braço esquerdo sobre a coxa, apontado em direção ao teto e sua mão tremia. Em sua cabeça faltavam alguns tufos de cabelo. Os que restavam formavam uma espécie de palha grisalha que descia até os ombros. O velho tinha dificuldade em entender as orientações da enfermeira impaciente. O senhor que o acompanhava tinha cabelos curtos e negros e segurava com as duas mãos um guarda-chuva apoiado no chão.

*

Eu morri. Morri, finalmente. Cedo, mas me pareceu uma vida inteira. E foi, estou certo, uma vida inteira, talvez mais de uma, várias vidas inteiras pela metade. Eu morri. Estive perplexo por algum tempo desde a minha morte. É que falei tanto da morte. Especulei tanto sobre a morte, tive tanto medo. No dia em que morri eu vestia cigarrete jeans azul e camisa cinza enrugada com quatro botões, que iam do pescoço até quatro dedos acima do umbigo, todos abertos. Meus cabelos estavam o mais próximo possível da cor e da textura naturais, com as laterais raspadas e um imenso topete que me dava algum ar de soberba. Calçava um par de meias esporte cinzas, tênis allstar em couro preto, já gasto, e vestia cueca justa de tecido liso, sem estampa e sem costura. Usava um perfume comprado por R$ 25 na Rua Senhor dos Passos, ou nas proximidades, com fragrância incrivelmente idêntica ao de uma marca famosa e fixação surpreendentemente longa. No braço direito estava amarrado um pedaço de linha em várias voltas, no exato tom de verde que era a minha cor predileta. E um relógio analógico com tiras de borracha e corpo metálico grande, com os números zero, três e nove e um calendário desenhados em preto, branco, prata e vermelho, alternando entre o lado esquerdo e direito do visor. Um tecido marrom formando uma fita estava amarrado em volta do braço esquerdo. Usava também um cordão de prata com uma placa retangular com o mapa do Rio de Janeiro em baixo relevo e um cordão artesanal feito com apenas uma linha grossa emborrachada marrom. Eu morri ouvindo To The Last e não Thunder Love.

Quando a morte anestesiadamente me acertou, no breve intervalo entre o se dar conta da morte iminente e o morrer, que é raro, muito raro, eu vivi um pouco ainda para perceber que já estava morto. A morte concreta não me trouxe terror, mas, vejam só, esperança. Até na morte havia esperança. A morte não era o fim, mas um fim. Toda a minha fertilidade imaginativa havia me traído e a morte não era o fim. De modo que posso afirmar, com segurança, que a morte não é o ponto derradeiro, o ponto último de quem busca ou quem acha o que procura. Quem busca, portanto, na morte uma fuga, pode encontrar estados tão mais inquietantes que o céu e o inferno, que a paz ou a tortura. A morte não é remédio para nada.

Eu morri. Mas antes, era como se eu pressentisse a morte. Já havia um gosto estranho nas coisas e uma atmosfera insuportável onde quer que eu estivesse. Eu não me sentia mais parte de nada. Nem cansado mais eu estava. Era uma criatura absorta, vagando por atividades rotineiras, passando os olhos sem interesse por livros e jornais, o pensamento suspenso em alguma ideia inalcançável. Um dia antes eu tinha saído para dançar e entrei numa boate carioca pela primeira vez desde que havia chegado. Mais cedo, reparei uma última vez nas dezenas de botes e barcos ancorados na Guanabara. Havia chovido na noite anterior e o ar ainda guardava umidade. Que bom que eu pude ver a chuva.

No dia em que morri o mar que vim buscar me pertenceu e estava entregue a mim ate onde minha visão podia alcançar. A cidade ruidosa, outrora aflitiva em sua desordem ordenada, estava domada, minúscula, uma tatuagem no meio da natureza selvagem. Ou eu pertenci a ele ou nos pertencíamos, não estou certo e talvez nem importe. Importa o fato de que o mar era meu, era um amigo e era meu, estava em mim e me envolvia como quem abraça com amor o objeto de sua afeição. E foi tão belo, mas tão belo, que a beleza sufocou-me a ponto de me provocar terror, e eu tive de me afastar da beleza por um momento para então conceder-me por inteiro, integrado, um átomo da beleza, eu, no meu desintegrar.

Eu não quereria jamais que a minha morte desestruturasse alguém. E também não quereria que a última lembrança que tivessem de mim fosse a de um homem moribundo, deitado em sua palidez mórbida numa caixa de madeira defronte para uma plateia chorosa. Velórios e cemitérios são mais tristes que a morte em si. A bem da verdade a morte quando sabe o momento de bater à porta está mais cercada de uma alegria genuína do que podemos supor. Era de se esperar que a última lembrança que tivessem fosse de palavras de estímulo, portanto, e, se possível, um sorriso sincero de dor e de grandeza, inspiração. Um sorriso para a vida que foi. Para as vidas que vêm. Para os legados ruidosos que se deixa, ainda que sejam ruídos tímidos.

Houve quem festejasse a minha morte e quem sentisse o coração apertado. Os que festejaram, os fantasmas vivos que queriam a todo custo impor sua existência aos que de fato estavam vivos, decerto não sabiam que a morte é libertação e que portanto estava liberto da negatividade inofensiva de seus sentimentos, e que com o que sobrou ainda os havia libertado da amargura e tristeza invisível que era carregá-los. Os que lamentavam o faziam por motivos vários que nunca saberei ao certo quais eram. Por amor, creio. Havia ainda os muito aflitos, corroídos pelos arrependimentos sem saber que, morto, eles só existiam em seus peitos. Houve quem lutasse com a perspectiva de um fim iminente e não soube o que fazer quando uma nova realidade os tomou de assalto.

Para fechar os olhos basta os ter tido bem abertos uma única vez. Para realizar um sonho basta um sonho, desses que exige entrega, e um pouco só de coragem. E precisa de investimento contra a preguiça, como disse uma vez uma sábia. Precisa aceitar as mortes. A morte é um voo. Agora, morto, eu perpasso céus e flutuo glorioso no esquecimento do tempo. O tempo, o pai onipresente.

*

Ta tudo bem? Ficou olhando para a tela do aparelho celular até que a luz do visor apagasse, pensando nas diferentes formas de responder àquela pergunta. Mesmo vinda de um grande amigo, daqueles para quem certamente a resposta poderia ser Ta tudo uma merda e dali se estabeleceria muitas horas de conversa da qual no fim ele se sentisse melhor, procurou levar em consideração até que ponto falar sobre as suas insatisfações atuais ajudaria a fazer com que de fato se sentisse melhor. Até porque já havia falado tanto, e escrito, e pensado tanto a respeito, a ponto de que realmente não lhe seduzia a ideia de abrir o coração para o amigo. Ta. E ai?, foi a resposta.

*

Nada me parece tão atraente quanto cobrir-me com estes lençóis e esperar pelo dia de amanhã. Ninguém sabe se ele vem, como vem… Mas de certo enquanto espero estarei aqui investigando pensamentos que me surgem com frequência sem aviso algum. Investigando a própria escrita e essa tendência de me retratar nesses registros, meio Clarice Lispector meio Frida Kahlo, e me perguntando se um dia saberão que esta é a única maneira que eu tenho de fazê-lo, ou, se não a única, pelo menos a mais legítima.

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