O Projeto Rosie

O Projeto Rosie, de Graeme Simsion, editora Record, 2013
O Projeto Rosie, de Graeme Simsion, editora Record, 2013

Don Tillman tem um cargo vitalício como professor e pesquisador de genética em uma universidade renomada em Melbourne. Ele está chegando aos quarenta anos e decide que é hora de casar, mas não tem muitas aptidões sociais e sentimentais para lidar com pessoas, em geral, e com mulheres, em particular. Isso porque, em suas próprias palavras, seu cérebro foi “configurado de modo diferente do padrão”. Sobretudo quando se trata de relacionamentos amorosos.

Sistemático, Don habita um universo particular de poucos amigos (dois, precisamente), onde tem seu próprio Sistema de Refeições Padronizadas, controla minuciosamente o tempo de cada uma de suas atividades e calcula mentalmente o índice de massa corporal de seus interlocutores.

Sendo assim, nada mais natural que elaborar um rigoroso questionário para selecionar possíveis pretendentes e escolher a parceira perfeita: aquela que não seja matematicamente analfabeta, não chegue adiantada ou atrasada a um compromisso – mas tão e simplesmente no horário exato -, não fume, não beba, não tenha restrições alimentares e que tenha alguma habilidade culinária, entre outras exigências (muitas outras. 16 páginas, frente e verso, de outras exigências).

Mas, como tudo na vida, arranjar uma solução para o Projeto Esposa vai demandar que o personagem tenha paciência e disposição incomuns para lidar com a sobrecarga emocional resultante das sinuosidades no caminho.

Ela me passou o vinho, depois começou a olhar as outras garrafas da seção alcoólica. Compro apenas vinho em meias garrafas.
— Então você prepara essa mesma refeição todas as terças, certo?
— Correto.
Listei as oito maiores vantagens do Sistema de Refeições Padronizadas.
1. Nenhuma necessidade de acumular livros de receita.
2. Uma lista de supermercado padrão — e, como consequência, compras bastante eficientes.
3. Desperdício quase nulo: não existe nada na geladeira nem na despensa que não seja o necessário para alguma receita.
4. Dieta planejada e nutricionalmente equilibrada, programada com antecedência.
5. Nenhum desperdício de tempo pensando no que cozinhar.
6. Nenhum erro, nenhuma surpresa desagradável.
7. Comida excelente, superior à da maioria dos restaurantes, a um preço bem mais baixo (ver item 3).
8. Mínima carga cognitiva empregada.

George Simsion, o autor por trás da peculiar “configuração” de Tillman, concebe-o de maneira tão interessante que é tentador usar a expressão genial para definir seu trabalho aqui. Ele consegue fazer de O Projeto Rosie, lançado em 2013 pela editora Record, uma leitura prazerosa, estimulante, e, mais desafiador: original, em termos de roteiro e linguagem, principalmente – considerando a previsibilidade das comédias românticas, em geral.

Narrando em primeira pessoa, absolutamente travestido de Don, Simsion constrói um personagem complexo e cativante, apesar de todos os protocolos e maneirismos não convencionais de Don (ou por causa deles) e de sua aparente rabugice. Econômico nas palavras, o autor abusa de uma linguagem formal, às vezes técnica, até, e involuntariamente cômica.

O resultado é uma condução rápida e fluida das ações, que não pula, contudo, o desenvolvimento preciso dos personagens. Tudo se encaixa com perfeição aqui, e, mesmo que as coisas caminhem para uma inevitável obviedade, é delicioso ver o personagem descobrir-se de maneira tão sutil.

George Simsion levou seis anos para escrever a história. Talvez o tempo de dedicação explique a maturidade alegre desse livro, e sua escolha por tratar de maneira leve e singela o espectro por vezes doloroso e preocupante da Síndrome de Asperger.

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