Fim

Fim, de Fernanda Torres, Companhia das Letras, 2013
Fim, de Fernanda Torres, Companhia das Letras, 2013

Eu não conhecia muito da escrita de Fernanda Torres. Depois de ler seu primeiro romance, Fim, lançado pela Companhia das Letras no ano passado, me senti impelido a buscar alguns dos textos que ela escreveu para a Folha de S. Paulo e para a Veja Rio. Pude notar que alguns dos temas tratados no livro estão dispersados em suas muitas colunas, de modo que creio que para um leitor habitual sua incursão pela literatura pode não ter sido tão surpreendente.

Mas eu fiquei positivamente surpreso com a sagacidade e a magnificência do material elaborado pela reconhecida atriz. Fim revela uma autora de personalidade e de contrastes.

“O viagra é tão revolucionário quanto a pílula, mas ninguém tem coragem de dizer isso”

Primeiro, porque trata-se de uma mulher relativamente jovem escrevendo uma das histórias mais masculinas que me recordo de ter lido, expondo o fim da vida de cinco homens no Rio de Janeiro, a maioria de idade avançada, amigos que compartilham memórias e colecionam equívocos.

Fim é todo centrado nessa virilidade, atingindo também a voz narrativa, que com frequência adota a primeira pessoa. Fernanda exibe uma vitalidade invejável nesse exercício, trazendo à tona uma narradora-deus, onisciente e onipresente, dando vida a cada personagem que dá as caras no livro com riqueza e esmero.

“Embriaguez afetiva”

Seu trabalho é sólido e ganha tons desafiadores com uma narrativa fragmentada que promove um vai e vem no tempo, trocando de personagens e de leituras abruptamente, e com memórias em comum sendo digeridas por personagens distintos com diferentes pontos de vista. Com isso, descortina-se aos poucos suas histórias, mas também a ideia de velhice, da solidão e da morte.

Sim. Fim, como o nome sugere, trata sobretudo da morte. Mas trata também da vida, das diferentes maneiras como vivemos a vida, dos nossos jogos, dos relacionamentos que construímos e dos que destruímos, do eterno desnorteio frente as tragédias nossas de cada dia e da nossa pequenez diante da complexidade da vida e da incapacidade de escapar da morte.

“Como fede o Rio de Janeiro”

A Zona Sul e o centro da cidade maravilhosa ganham destaque na obra, sendo palco para as ações dos personagens oriundos da classe média. A Zona Norte, onde Fernanda nasceu e têm família, ganha um registro na descrição da ascensão de Célia, esposa de Neto, um dos integrantes do quinteto central. O Rio aparece quase como um personagem, com descrições de tardes na praia, das festas, das ruas e da folia de carnaval, e uma certa nostalgia dos tempos pré boom imobiliário.

“Angústia filha da putíssima”

Em primeira pessoa, a autora narra as memórias e o momento da morte de Álvaro, Ciro, Neto, Sílvio e Ribeiro. É uma decisão cativante, que promove empatia à medida que Fernanda humaniza seus personagens dando-lhes a franqueza que só a velhice pode trazer, e promovendo intensos fluxos de consciência, com descrições poderosas e por vezes angustiantes das sensações pré-morte e do derradeiro momento. E, assim, com um infarto, uma overdose, um câncer, um suicídio e um atropelamento, ela completa um ciclo de vida e morte a partir de um olhar de desesperança. Mundano, cru e ordinário, como a própria vida se apresenta em muitas oportunidades.

Abaixo, Fernanda Torres lê um trecho de Fim.

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